segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Sobre amores que deixam marcas


Talvez eu encontre você no final de uma segunda-feira nublada, na volta pra casa, meio cansado e mal-humorado, enquanto tento entender por que a vida não pode ser feita de manhãs de domingos. E talvez você sorria, sincera, porque tudo já vai ter passado, como sempre passa.
Talvez eu não me lembre direito por que você deixou de fazer sentido pra mim. E talvez você, ali, naqueles poucos segundos em que nossos olhares vão se encontrar, se questione por que raios foi que a gente não deu certo. Por que foi que o nosso amor não vingou.
Quem sabe eu fique amigo de uma de suas colegas de trabalho e saiba por ela que você ainda pergunta sobre mim de vez em quando. Porque, apesar de tudo o que foi gritado, você ainda lembra que curtiu muito os dias comigo. E é normal a gente querer saber se quem um dia a gente amou anda feliz, anda bem, se tá vivo. Talvez eu também arranje coragem pra contar pra ela que, entre o ódio e o desprezo que eu senti, sobrou também um tiquinho de carinho.
Pode ser que a gente se esbarre no aeroporto, eu partindo e você chegando. E aí talvez a gente perceba que nosso problema não foi sermos “as pessoas erradas”, foi só falta de timing. Eu tava sempre indo e você já tinha voltado. Eu ainda tava te amando e pra você já tinha acabado.
Talvez bata uma saudade louca no final do seu próximo relacionamento. E talvez eu tenha vontade de te ligar no dia do seu aniversário, como tive ontem. Quem sabe até eu não ligo. Não é pra pedir pra voltar, eu juro. Talvez eu apenas te deseje um futuro feliz.
Pode ser que, entre meia-noite e uma da manhã, você feche os olhos e se lembre de mim. E talvez doa (também dói por aqui) ou talvez você só sorria (é bom saber que a gente viveu tudo aquilo, não é?). Porque, talvez, lembrando de mim como eu me lembrei de você pra escrever isto aqui, a gente descubra que alguns amores marcam e ficam. Ainda que acabem. Como o nosso ficou.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Quase




Juro, tô quase te esquecendo. Tirei tuas fotos dos porta-retratos, guardei tua escova de dentes no armário e joguei fora seu antialérgico. Não compro mais rosas vermelhas, para evitar lembranças. Nunca mais cheguei perto daquele banquinho onde namorávamos, nunca mais fiz cooper  na orla e nem fui mais ao clube aonde íamos aos domingos, aquele mesmo clube que foi cenário do nosso primeiro beijo de amor. Apaguei nossas fotos do celular, deletei nossas conversas. Ainda não consegui doar as tuas roupas que ficaram aqui em casa, mas juro, tô quase te esquecendo.
Se não fossem as músicas que ouvíamos juntos e que ainda continuo ouvindo, aquela camisa azul bebê que você me deu e que é a minha favorita  e o teu cheiro, eu já teria te esquecido. Não te procuro na internet, corto caminho para não passar na frente do teu prédio, evito ir ao cinema nas sextas-feiras e na praia aos domingos. Se não fossem os filmes que assistimos juntos passando na TV pelo menos uma vez por semana e aquele cara ainda vendendo pastel misto na minha esquina, eu já teria te esquecido. Mas juro, tô quase te esquecendo.
Excluí teu telefone da minha agenda e joguei fora os meus textos não entregues pra você. Pedi pra moça que trabalha aqui em casa nunca dizer que eu estou em casa, e pedi pra os vizinhos nunca falarem de mim, e nunca mais fiz beijinho de coco e nem estudei técnicas de massagem. Se não fosse a vontade de tomar aquele drink ''Pajuçara'' na Itynerantys e a necessidade de tomar banho ouvindo música, eu já teria te esquecido. Troquei a roupa de cama, quebrei aquela xícara, joguei fora a roupa que ficou com cheiro do hidratante de maracujá que te dei e você usava pra fazer massagem em mim, mas, juro, tô quase te esquecendo. Se não fosse o curaçau blue e o sorvete de flocos, eu já teria te esquecido. Se não fosse a praia dessa cidade, eu já teria te esquecido.


Comecei a ler pra afastar a insônia, entrei na academia, fui fazer compras no meio da semana, troquei o plano de fundo da minha área de trabalho, fiz uma limpa nas minhas pastas e alterei minhas senhas. Se não fossem as pessoas sempre me perguntando sobre você e aquele coração de argila que você fez pra mim, eu já teria te esquecido. Mas eu juro, tô quase te esquecendo. Cortei o cabelo bem baixinho, deixei a barba ficar alta, no tamanho que você não gostava, comi uma caixa inteira de bis, dancei na frente do espelho até não aguentar mais, dormi no meio da tarde, cheguei atrasado numa entrevista de emprego, quebrei meu cofrinho e planejei uma viagem. Se não fosse o fato de a carteira de estudante que pedi pra você fazer pra mim nunca ter chegado, juro, eu já teria te esquecido.


Se não fosse o fato de que muita coisa ficou sem explicação e fofocas, mentiras e inveja que nos atrapalharam, eu já teria te esquecido. Se não fossem os encontros com seu porteiro Harold toda sexta-feira de manhã no ponto de ônibus, eu já teria te esquecido. Se não fosse meu casaco ainda com o seu cheiro, eu já teria te esquecido. Se não fosse a vontade de te ver todos os dias, eu já teria te esquecido. Se não fosse o supermercado aonde íamos com frequência ainda estar lá, intacto, no mesmo lugar, e com nossos doces nas mesmas prateleiras, eu já teria te esquecido. Se não fosse o vídeo game, eu já teria te esquecido. Se não fosse o twix, eu já teria te esquecido. Se não fossem as lojas que vendem cadeiras e sofás, eu já teria te esquecido. Se não fosse o espelho quebrado, eu já teria te esquecido. Se não fosse a tua voz, eu já teria te esquecido. Se não fosse a tua risada, eu já teria te esquecido. Se não fosse você, eu já teria esquecido. Mas juro, tô quase.




domingo, 13 de julho de 2014

Tropeço em ti





Atravesso na faixa e viro duas ruas antes do caminho que eu sempre pegava. Você se lembra bem, eu sei, que eu costumava passar por ali todos os dias e olhar pro prédio vermelho e cinza. Olhava, apontava, andava mais um pouco e pegava o ônibus das 9h pra dar tempo de chegar no trabalho. Mas faz um tempo que não passo por ali. No novo caminho que faço, passo sempre distraído olhando pra baixo, com um café numa mão e o celular na outra pra responder e-mails e notificações inúteis. Finjo que já tenho o caminho alternativo decorado e ando sem olhar pra frente, esbarrando sempre numa placa e tropeçando num buraco na calçada à esquerda. O mesmo buraco, um novo tropeço, todos os dias.
Vou te dizer que o balanço do ônibus me incomoda, mas incomoda porque no trajeto eu desligo o celular e fixo um olhar distante na janela. Volto o pensamento em você. Na sensação que eu tinha de companhia ali do lado, dos domingos de sol, das noites comendo besteiras, brincando de bem-me-quer-você-me-quer contigo. Volto o pensamento em você e me lembro da promessa de que você nunca mudaria, por mim e pela versão de você por quem me apaixonei. Eu prometi também, meu bem, e nunca mudei.


Deixo as roupas no varal, com sol ou com chuva, porque eu sou metódico e sigo as tuas instruções uma por uma. O passo um era pedir desculpas e entender um pouco melhor sobre fechaduras. Pulei a lição. O passo dois era fingir que eu não me incomodava com recaídas, que tava tudo bem por mim se você me quisesse de tempos em tempos, eu estaria disponível no cardápio volante do buffet. O passo três era não ligar, não mencionar, não me importar e reprogramar as minhas reações para serem inertes sempre diante de ti. Falhei miseravelmente. Até o dia em que você desapareceu do outro lado da estação e eu nunca mais vi teu contorno.
Entende, bem, que eu aceitei a ideia de você ir embora. Não era hora, tudo bem, mas era eu. Tenho certeza de que era eu e de que era o meu amor que você precisava. Tenho certeza que você dorme com o meu cheiro no travesseiro e isso te incomoda, que você vê umas fotos minhas nas redes sociais e não curte por receio, mas fica balançada. Tenho certeza de que eu tenho um espaço cativo ali, feito espinho na rosa do teu peito. E faço você se coçar, se arrepiar, soltar uns suspiros, se perguntar o que deveria fazer e baixar a cabeça pra continuar olhando em frente – porque você tem certeza de que fez a coisa certa em deixar pra lá.
No mais, eu tenho tentado refazer as coisas do meu jeito, sem seguir todos os jeitos que eu conheci com você. É bizarro, você não acreditaria em como é difícil se desfazer das manias de quem se ama, de como é complicado ir desconstruindo os costumes e as coisas que eram normais até ontem e hoje já não existem mais. Você mesma fez a mudança, não deixou nada que doesse, mas me deixou. Quer dor maior que essa? Dói em mim e eu te evito em cada canto. Não vou mais na mesma padaria, no mesmo parque, no mesmo cinema. Não penso mais em assistir os filmes que assistimos juntos ou as músicas que ouvíamos juntos porque, amor, não é por mal, é por mim. É uma tentativa consciente de apaziguar um pouco o que tá rolando aqui dentro e ficar em paz. Continuo tentando porque sei que não consegui ainda.
Ontem, por exemplo, eu tomei café mais cedo e decidi que refazer o nosso caminho era a melhor forma de provar pra mim que já tava tudo bem. Me arrumei, hesitei, peguei o café e o celular na mão só pra compor a paisagem. Passei direto pelas duas ruas que eu nunca via e entrei na do prédio vermelho e cinza. Olhei uma vez e corri os olhos pro lado. Olhei uma segunda vez e nada, nenhum ploft mágico, nada pra tirar o smartphone da minha mão e pôr a tua ali. Percebi que não adiantava nada. Mesmo sem buraco na calçada eu iria acabar tropeçando, porque eu acabo sempre tropeçando nas lembranças, na saudade, acabo sempre tropeçando em ti.


sábado, 7 de junho de 2014

''Saudade é''






Um suspiro.
Não sei do quê. Sei que foi comprido. E alto. E cheio de alguma coisa que não é ar.
Juro que tinha ambulância preenchendo a noite. Um clichê, quando paramos para prestar atenção na cidade. Mas tinha uma ambulância. Alguns cachorros latindo. Carros passando na avenida e aquela moto se esguelando como faz todo final de semana. Até sirene de polícia. Um grilo! – ou dois – pude ouvir quando cortinei os olhos. E quando não tive mais com o que distrair a visão, nada além de uma black paisagem, percebi que era a saudade entrando pelo meu nariz. Eu inspirava saudade.
Um dia, me lembro de doer dela. Ela longe. Ela longe até quando voltava pra cidade. Ela escorregando de mim o tempo todo. A saudade que dá mesmo enquanto ela me encarcerava com palavras. Voláteis, como nasceram para ser. Porém não como eu lido com elas. Engarrafar os dias de uma vida e qualquer pensamento é a desculpa com mais sentido para continuar aqui.
Sentir saudade só do que não é meu.
Saudade que deixa o coração inchado e meio dolorido até. Saudade é cólica cardíaca. Você acha que expirar o que é tóxico dela, depois de consentir sua entrada, vai resolver tudo e você pode dormir normalmente à uma da manhã. Não. Você enruga a cama, suando saudade. Tá tudo confessado no lençol. Saudadumidade. Entregue explicitamente para só eu mesmo saber. E guardar. A saudade é minha. Não preciso dividir com ninguém. Preciso lavar esse lençol e voltar pros grilos e as sirenes. Agora algum carro arrombado pede ajuda. E vai partir sem um bilhete, uma mensagem no celular. Mas pode ser só um dono desligado, que não se atenta que portas abertas convidam sempre alguém para entrar.










Adaptação do texto ''Saudade é'', de Priscila Nicolielo, postado no blog http://priscilanicolielo.com/ .

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Sobre o pouco que sobrou dela





 Ele acordou com vontade de fumar. É estranho, geralmente isso nunca acontece. As manchas nas pontas dos dedos denunciam que as noites já costumam ser enfumaçadas, ele não precisa que suas manhãs também sejam. Era uma manhã bonita. Céu azul, sol, era fim de julho, porém inverno. Estava bonito, não estava quente como costumam ser os dias de sol nos trópicos, estava agradável. Não estava agradável o ar em sua volta. Ele não sabia direito qual era a razão. Queria algum significado, pelo menos entender o aperto no peito. Queria um cigarro.

Enrolou um pouco antes de começar sua rotina, que consistia basicamente em encontrar as forças numa xícara de café, tomar banho, vestir qualquer camiseta e sentar diante da tela em branco e rezar para que as palavras cheguem sem doer muito. Nessa enrolada passou os olhos numa rede social de fotos que participa, ainda que seja contra redes sociais virtuais. Só que em vez de fotos, só tinham postado mensagens. Acreditou mais uma vez não pertencer a esse mundo. Lembrou de uma frase de Paulo Francis: “cheguei tarde demais num mundo muito velho”. Algo assim. No meio daquele mar de palavras em vez de imagens que diriam mais do que mil daquelas, citações duvidosas de Clarice, Verissimo, Caio Fernando, Jabor e até do Jô Soares. Não acreditou em nenhuma daquelas frases. Nem sentiu vontade de escrever alguma.

O pescoço doía, mas se sentia mais a fim de ficar ali, com dores no corpo do que atrás de um renovador banho de sol invernal. Talvez ali conseguisse ficar invisível durante um tempo, caso o celular não tocasse. Poderia não atender, depois dizer que estava dirigindo ou no banco, caso cobrassem. Poderia não falar com ninguém, não mandar uma mensagem, nem ler. Nem ler mensagens edificiantes e mentirosas de Clarice, Verissimo, Caio Fernando, Jabor e até do Jô Soares, que os próprios provavelmente nunca escreveram – se escreveram, enganaram. Nutriu uma pequena vontade de que quando não desse mais e tivesse que pisar no chão frio, fosse 1991, 1967 ou até 2010, já estava bom, daria pra fazer uma série de coisas de um jeito diferente.

Olhou para o celular. No fundo, ele sabia. Naquele dia fez três anos. Por onde ela anda? Era meio dia e o aplicativo de troca de mensagens avisou que ela tinha sido vista por último meia hora antes. Pra onde será que ela foi? O pouco dela que sobrou três anos depois vive somente num aplicativo de mensagens instantâneas, num mundo virtual cheio de mensagens falsas de Clarice, Verissimo, Caio Fernando, Jabor e até do Jô Soares. Ela provavelmente deve gostar dessas frases, ele não sabe, não a segue, é melhor assim. Ele quase escreveu uma mensagem, mas diria o quê? Só um “oi” resolveria? Talvez, mas não iria adiante. Se  tivesse pulado da cama e enfrentasse o sol gostoso de inverno talvez a encontrasse por aí. Meia hora antes ela tinha sido vista virtualmente, agora já devia ter caído no mundo. Já devia ter programado o dia, estaria almoçando com outro, combinado um fim de semana com outro, outro que nunca deve realmente ter lido Clarice, Verissimo, Caio Fernando, Jabor e até o Jô Soares. Talvez ele só quisesse mesmo dizer “oi”. Caso a veja, diga por mim. Será que por um segundo ela pensou nele e lembrou que três anos se passaram? Não, provavelmente não. O mundo não é assim, uma comédia romântica surreal, um filme com final feliz. O mundo é de mensagens falsas de Clarice, Verissimo, Caio Fernando, Jabor e até do Jô Soares. Ele queria dizer somente um ”oi”. Acendeu um cigarro.












''O pouco dela que sobrou num aplicativo de mensagens instantâneas'', por Alexandre Petillo em: http://www.casalsemvergonha.com.br/2014/06/05/o-pouco-dela-que-sobrou-num-aplicativo-de-mensagens-instantaneas/


domingo, 1 de junho de 2014

Eu podia


Eu podia, você sabe. Podia falar horrores de você e dizer que você me magoou e dizer que doeu e dizer que ninguém devia acreditar nas coisas que você diz. Eu podia contar daquele jantar de quarta em que você abraçou e jurou e  foi quem eu sempre achei que fosse. Pior, eu podia expor quem você foi quando se esqueceu de tudo e enfiou o dedo na ferida, como se tanta coisa tivesse ficado presa e você precisasse magoar qualquer um, qualquer um, pra doer menos aí dentro. Eu podia dizer como você me tratou como qualquer um.

Eu podia falar mal e apontar os seus defeitos e dizer das mentiras que você conta numa tentativa frustrada de ser logo a pessoa que você queria ser. Eu podia contar daquela vez em que você desviou os olhos e fingiu que não era com você, ainda que você soubesse que era e ainda que soubesse bem da culpa que tinha. Eu podia jogar na cara todas as suas palavras vazias de quem tem muito o que falar – e fala muito – mas no fundo não diz nada além de: eu não tenho ideia do que tô falando. Eu podia falar sobre o tanto que eu apostei em você – e sobre o preço que tô pagando por essa aposta.

Eu podia te contar de como minha mãe ainda pergunta por você e quer sempre saber se você tá bem, se tá com saúde, por que não vem mais aqui em casa. Eu podia revelar que ela sempre me culpa pelo nosso fim, porque é isso o que vocês mais gostam de fazer: achar que quem erra sou sempre eu. Eu podia, realmente, te perdoar por tudo e esquecer qualquer coisa e achar que a gente conseguiria começar tudo de novo. Mas eu sei e você sabe que não é exatamente isso o que você quer.

Eu podia continuar gritando e continuar escrevendo e continuar falando para todo mundo sobre tudo o que aconteceu e me irritando porque você sequer deu a chance da gente tentar consertar. Eu podia continuar mastigando essas dores e remoendo esse passado e me questionando por que a gente acaba magoando e sendo magoado por quem a gente ama. Eu podia espalhar por aí sobre a pessoa horrível que você foi e como todos deveriam se manter afastados.

Eu podia, você sabe. Mas sabe também que o tempo passou e que, com o tempo, um pouco de maturidade é acrescentado à soma. Sabe também que eu não tenho mais saúde, nem tempo, nem disposição, nem energia para ser o menino besta que adorava uma boa briga como eu era até outro dia. Sabe também que eu aprendi algumas coisas ao longo do caminho, inclusive com você.

Por isso, de todas as coisas que eu podia te falar, falo isso: enquanto deu, você foi tudo o que eu achei que era. Enquanto deu, você me aguentou e segurou as pontas e ouviu minhas dúvidas sobre o mundo e o universo e a merda toda que a gente tá fazendo aqui. Enquanto deu, você foi – e de todas as coisas que eu quero lembrar, lembro disso: de todo o amor que você me deu e eu tentei devolver no tempo em que fiquei na sua vida. Porque o resto, o resto é só a vida sendo a vida e os defeitos sendo os nossos defeitos e polos iguais se repelindo. É só isso, sem mais conversas, sem mais reclamações, sem mais nada.

Porque eu podia, te juro, podia. Mas já não posso. Já não dá.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Foi amor





Amor foi aquele primeiro beijo embaixo da cascata da piscina. Amor foi quando você baixou as mãos no nosso segundo encontro e encostou timidamente seus dedos nos meus. Foi a forma como você se inclinou pra direita pra fazer caber o meu braço em volta do teu quadril, rodando o corpo um pouco pra se encaixar em mim na saída do cinema. Foi quando você me levou num píer abandonado pertinho da praia num dia nada bonito e eu não sabia bem o que esperar, só sabia que você já tinha ido ali com outra pessoa e isso me incomodava um pouco, sabe? Me incomodava que alguém pudesse ter sentido o que eu senti, pudesse ter feito o que eu fiz ou até mais, me incomodava saber dos seus fantasmas. Amor foi quando eu senti tudo isso e você me mostrou o céu enquanto encostava no meu peito, no píer, com as mãos na água como se prometesse baixinho que eu poderia ficar por ali uma vida inteira.





Amor foi aquela nossa ida ao farol no fim de setembro e todas as selfies que a gente tirou no meio do caminho, entre corais e ouriços. Foi a almofada que você me deu quando eu bati a cabeça na porta do seu carro e nunca mais consegui dormir direito sem quase quebrar o pescoço.  Foi o porta-retratos na minha mesa do trabalho e o elogio do chefe de ''como, puxa, você é um cara de sorte e os olhos dela te fazem um bem danado, hein?''.  Faziam um bem danado, abertos ou fechados, desde que eu pudesse atravessá-los até chegar em você. E me lembro bem que foi amor quando eu remei, nadei, até aprendi a fazer umas acrobacias subquáticas pra te pedir desculpas por tudo. Amor era você me chamando carinhosamente de ''namoradinho''. Amor era você me chamando por primeiro e segundo nome quando eu fazia algo errado. Amor foi aquele cartão borrado e cheio dos meus garranchos que te dei quando não tinha flores.
Amor foi aquele ''jantar'' de aniversário de namoro a base de empadas.  E a dieta da proteína da outra semana, a ortomolecular da próxima e todas as segundas que a gente passou de cara feia um pro outro sem saber que era fome. Foi o saco de lixo com uns papéis importantes que você botou pra fora, porra, cê podia ter perguntado se eu ia precisar de alguma coisa dali, né? Eu precisava e não adiantaria de nada você ter perguntado porque eu nunca reparo nos detalhes. Teria visto a pilha em cima da mesa e despachado, assim como eu vi as coisas todas e deixei de lado, em algum canto do meu quarto desarrumado, nem fiz questão de botar pra baixo do tapete. E amor foi quando você trancou a porta do quarto porque eu disse que não ia voltar naquela noite. Nem na outra, nem na próxima noite e em semana alguma. Foi quando você tentou desmarcar uns compromissos enquanto eu mantinha a agenda fechada e dizia '' não posso hoje, desculpa, vamos tentar na semana que vem?'' Amor foi quando você continuou ligando e até me comprou presente de aniversário quando a gente finalmente se sentou pra discutir. Foi quando você pediu pro garçom não trazer gelo – porque eu tava doente – e me entregou um casaco pra me aquecer – porque já passava das 22h e eu não precisei dizer um pio pra você descobrir minha gripe. Foi quando você me contou o que tava fazendo e riu de como me conhecia nos detalhes, quando confessou que sabia que tinha algo de errado e que eu não era mais o mesmo, foi quando você podia ter me deixado, mas me deixou na porta de casa e disse que esperava que eu ficasse bem.
E eu só vi isso tudo quando você foi embora. Porque aquilo também foi amor.





domingo, 18 de maio de 2014

''Antes de você eu já sorria''




É então, foi isso.
Nem chegou a começar e eu já tenho que lidar com o fim.
Mas isso não é novidade pra mim, e também não falo isso pra me fazer de vítima.
É que a gente vai criando uma casca e poucas coisas impressionam tanto.
E isso é algo que tem um lado bom e um ruim:
- o bom é que nos protegemos
- o ruim é que nos protegemos tanto que deixamos de nos permitir.
Mas eu tenho consciência dessas coisas, não é bem por aí comigo.
E ter consciência tem um lado bom e ruim:
- o bom é que eu sei que devo me permitir
- o ruim e que eu sei que deveria me permitir menos às vezes. (mas só às vezes).
É isso.
Tenho que te ver indo embora e não há nada que eu posso fazer pra voltar.
Eu nunca te obrigaria a viver algo que não gostaria. Nunca te falaria coisas que eu não gostaria de ouvir. E eu já fiz tudo, apesar de tão pouco tempo juntos.
Tem coisas que a gente precisar admitir antes de querer arrumar. Então eu já entendi que essa foi só mais uma vez que não deu certo pra mim. E no momento quero aproveitar o meu direito de pouco me importar com aquela história de que “deu certo enquanto houve história”, pra mim, por enquanto, não deu certo merda nenhuma. Ver indo embora uma pessoa que você gosta não significa dar certo em nada. Apesar de ser verdade, vou levar um tempo pra concordar que foi bom enquanto durou, por enquanto só repito pra mim mesmo o quanto me frustra aceitar que terminou.
Engraçado que eu me dediquei.
Mais uma vez eu me dediquei e tentei ser uma pessoa boa. E acho até que consegui.
Só que nem todo mundo está pronto para a pessoa que somos.
As fases precisam coincidir para que algo a mais possa existir e resistir.
É aquela história: às vezes somos a pessoa certa na hora errada, às vezes somos o contrário.
Gostaria, porém, que nunca duvidasse das coisas que já te disse.
Se não quiser guardar minhas mensagens, guarde minha verdade. É que eu sempre fui real em cada coisa que te falei ou te escrevi.
Lembra quando eu disse que gostava do jeito que mexia no cabelo? É então, eu gostava mesmo, não era conversinha fiada pra te levar pra cama. Lembra quando eu te disse que sentia saudade mesmo tendo acabado de sair da sua casa? É então, eu sentia mesmo, não falava isso pra você me achar bonitinho e fofo. Lembra quando eu disse que poucas vezes me senti com alguém igual me sentia com você? É então, poucas mesmo, talvez nunca. Era bom me sentir bem do seu lado. Lembra quando eu disse não me importar em você sair com seus amigos e aproveitar seu tempo? É, eu não me importava mesmo. Não fazia charme ciumento pra você se tocar e ficar comigo. Sempre pensei que precisava viver as coisas que gosta. Eu apareci na sua vida pra somar não pra subtrair. Lembra quando falei que podia comer metade da minha barra de chocolate? Então, podia mesmo. (só não podia comer a barra toda.)
Eu até que fico feliz.
Apesar de ainda não saber lidar muito bem com esse fim – quem sabe lidar com algum fim? – eu fico feliz ao lembrar que fiz minha parte para que nunca me esqueça. Tem que começar uma história fazendo história. E eu tenho certeza que nunca vai me esquecer. Isso é algo que estranhamente me faz bem.
Sei lá, esse gostinho de “missão cumprida”, de que marquei uma outra vida com parte da minha, é algo que faz bem.
Digo isso por ter certeza que você vai se lembrar de mim em vários momentos da sua vida. Pra sempre.
Você vai lembrar das minhas manias, vai lembrar do jeito que a gente ria. E capaz que lembrará disso após a próxima boca que beijar.
E nem que demore pra acontecer, nós ainda vamos nos encontrar nas lembranças dessa cidade. Talvez nos relógios das avenidas ou nas calçadas largas; talvez nas sorveterias ou talvez na fumaça da caneca em uma noite de frio. Não quero amaldiçoar seu futuro com o nosso passado, mas de mim você vai lembrar e essa é uma verdade que você deve aprender a lidar.
Bem, é isso então.
Pareço estranhamente conformado ao falar desse modo?
Até eu me assusto com essa minha tranquilidade toda.
Mas dá pra explicar: eu já me apaixonei por tantos beijos que me deixaram pra trás, já incluí tantas pessoas nos meus sonhos que depois não quiseram mais, já comentei pra minha família sobre tantas pessoas que depois foram embora, que não me estranha aceitar que mais uma vez aconteceu assim. É uma pena porque eu estava até que gostando dessa coisa de conversar sempre, de contar detalhes do dia e perguntar sobre a família, sabe? Essa coisa toda de dividir a própria vida com outra. Mas eu não te quero obrigada à viver comigo. Tentei te mostrar que tínhamos uma bonita história pra viver e mais do que ficar mal por não ter dado certo, eu fico bem por ter certeza de que fui pra você quem eu gostaria que fossem pra mim.
Está tudo bem e tudo vai ficar ainda melhor, afinal, antes de você eu já sorria.

Por Márcio Rodrigues em: http://umtravesseiroparadois.wordpress.com/2014/05/15/antes-de-voce-eu-ja-sorria/

Conta pra ele


Conta pra ele que na terça-feira passada eu não dormi por sua causa.
Conta que eu deitei de jeans, subi na cama de sapatos e me prendi em você. Que tava com seu cheiro nas mãos, no ombro, na camiseta e queria que ele se propagasse pelo quarto. Que pedi o nome do perfume pra comprar e deixar na cabeceira, pra tentar sanar minha gana de sentir você no mesmo espaço que eu.
Eu só me lembro que era noite já, tava frio, a fila da boate tava insuportável e você apareceu na porta no exato momento em que eu pedi três doses de tequila e a música começou a tocar. Você tava com ele, passou por perto com ele, subiu as escadas com ele – e manteve o olhar em mim. Por que você era dele e não minha? Porque as coisas não funcionam assim e cada um tem o seu paraíso particular, jurei pra mim. Jurei que não tava perdido, que tava tudo bem, que essas coisas que balançam a gente geralmente se prolongam e não ia ser aquele seu vestido florido ou o modo como você me descobria que iria mudar as coisas.
Conta pra ele que duas semanas depois você me diria – trancado num quarto mal iluminado e deitada no meu peito – que eu era a sua maior história de amor interrompida. E eu pensava, não falava, segurava o nó na garganta pra não te sujar com a minha instabilidade, pra não te dizer que eu tava me apaixonando, que as coisas já tinham desandado, que agora eu te levava pra passear comigo numa montanha-russa sentimental e que as travas da cadeira não tavam funcionando direito. Não te diria que eu reparo no jeito que o cabelo cai nos seus olhos e em como você tem o abraço mais regulável do mundo, que não se importa se eu visto M ou G, que não liga pra minha falta de memória, que acorda todo dia com um bom dia meu.
E conta pra ele que a playlist do meu iPod segue uma lógica pouco seletiva de canções que têm você como ritmo, ditando todo aquele ressoar pomposo que o meu peito faz quando cê tá por perto. Conta e tenta explicar aquela coisa dos teus lábios curvados num sorriso de lado, a expressão de surpresa, a sua cara de reprovação e a cabeça baixa deitada no meu ombro enquanto canta baixinho ''o tempo'' e não deixa mesmo, me segura entre os dedos porque eu tenho uma mania feia e fácil de escapar.
Conta pra ele que você conheceu alguém novo e que alguma coisa aconteceu às 5h30 da manhã de uma quarta-feira, mesmo você não tendo encostado a sua boca em mim, mesmo a gente tendo sobrevivido de abraços, boa noite e dorme bem. Explica como fica pausada-a-sua-respiração-em-fragmentos-detectíveis-e-como-todo-mundo-em-todo-lugar-repara-na-gente-junto. Conta que eu escrevo sobre você, que me lembro de você em cada curva que faço ou em cada estação de rádio que o carona do meu carro deixa parar. Conta que eu ando sonhando em como vai ser daqui pra frente porque a minha cabeça tá fudida, meu coração tá pesando, eu não sei o que eu tô fazendo, mas só sei que isso é bom. E como pode ser tão errado se você me faz feliz desde o dia em que sorriu pra mim?
Conta pra ele, baixinho, diz algo assim: “amor, eu não sei o que aconteceu, eu nem sei direito o que eu tô sentindo, mas ele me empurrou de um precípicio e agora eu tô caindo em queda livre junto dele”. Diz que encontrou alguém novo, que precisa ir embora e que a culpa não é dele. Se despede de cabeça baixa e não surta, me liga se for dia ou se for chuva, me manda um recado pra ir te buscar e te dizer que eu tenho certeza de nada ou que vou finalmente sumir e te deixar livre de mim. Mas antes disso, conta pra ele que me ama. Ou acaba com isso logo e conta pra mim.

terça-feira, 13 de maio de 2014

Se cuida


Vê se não esquece de tomar seu remédio duas vezes por dia. Não cancela os alarmes que programei, que senão você nunca mais lembra, cê sabe. Tenta não esquecer de fazer refeições mais saudáveis – o médico pediu para você maneirar se quiser se ver livre da gastrite nervosa. Coloca salada no prato, pelo amor de Deus. Ou por amor a si. Ou pelo amor que você já teve por mim. Não importa, só tô pedindo para você deixar um pouco o bacon de lado e tentar descobrir as vantagens do alface. Tô só te pedindo isso: nem que seja forçada, se cuida.

Tenta dormir umas 8 horas por dia. Esquece essa mania insana de querer abraçar o mundo com esses braços curtos que cê tem. Você é nova, não precisa querer fazer tudo de uma vez. Eu sei que a vida passa rápido, que o tempo corre, que ontem você era uma criança e amanhã já vai ter quase quarenta, mas quem se importa? Ficar nessa neura de querer realizar tudo – agora! – ainda vai acabar te matando.

Eu sei que você sempre amou essa coisa maluca da cidade grande, mas pisa no freio de vez em quando. Pega a estrada e vai pro mar. Visita aquela praia que a gente costumava frequentar. Ou procura outro pra não acabar esbarrando comigo pelos lugares em que a gente foi feliz. Visita sua cidadezinha do interior. Mas procura um lugar em que você lembre o que é estar calma. Lembra que você precisa disso uma vez ou outra.

Liga para sua mãe se precisar chorar. Ou pro seu irmão. Ou para aquela amiga de infância. Agora que eu não estarei aí, não hesite em pedir ajuda. Ou, se não tiver quem procurar, me liga. Não tem problema, pode me ligar. Eu te amei um dia (e, de algum jeito estranho e escondido, ainda te amo), não vou desligar na sua cara. Só não segura tudo isso. Não segura todas as dores. Nem fica achando que você precisa seguir o estereótipo de mulher feliz e jovem e alegre que a publicidade vende nos comerciais de margarina. E nem por um segundo pense que, só porque a gente não tá mais junto, eu deixei de me importar.

 Olha para os dois lados antes de atravessar a rua. Avisa aos outros pra onde você tá indo. E começa a ligar pras pessoas só pra lembrar que você tá viva. Tenha mais cuidado ao se jogar de cabeça em todas as relações que encontra e acredite mais nos olhos da pessoa amada do que em pessoas de fora da relação. E poupa um pouco seu coração pra ver se você acha, finalmente, um cara que te mereça e que você queira, de verdade, com todas as suas forças, corresponder. E vê se se cuida, amor. Que é desesperador pensar que eu, logo eu, não vou mais cuidar. 

segunda-feira, 28 de abril de 2014

''Eu sou um filme pra você assistir de novo''


Nós marcamos a vida das pessoas.
E aí depende da gente sobre qual maneira vamos marcar.
Tem palavras que renovam vidas, tem outras que destroem auto-estimas.
Tem pessoas que amaldiçoam perfumes e que nunca mais conseguem fazer com que esqueçamos delas ao sentir o mesmo cheiro outra vez qualquer. Tem gente que pega alguns dos refrões que gostamos pra si e custa para que consigamos ouvir novamente sem ter uma visita da lembrança. Nós somos tão submissos à nós mesmos.
Por isso nós gostamos de datas.
Datas servem pra marcar ainda mais a vida de uma pessoa na outra.
O primeiro beijo, o primeiro sim, a primeira vez, o primeiro filme, a primeira viagem, e tantos outros primeiros que construímos e que muitas vezes acabam se tornando eternos. Este somos nós: sempre em busca de motivos pra celebrar e as datas servem pra isso. Sem contar que não tem como não querer se prender a esse tipo de coisa, pois a sua memória pode não funcionar, mas o calendário estará sempre lá pra te lembrar no acaso de um segundo que aquele dia x não é so um dia x. Nós amamos motivos pra comemorar, nós amamos o “aquele dia que passamos juntos”.
Beijamos com a mão na nuca porque gostamos disso. É assim que gostamos beijar.
Pode ser que outras pessoas também o fazem, mas nós temos um jeito nosso de fazer e é esse jeito que será lembrado. Outros gostam de beijos com a mão no rosto e por aí vai. Na prateleira da vida tem uma caixinha de surpresas chamada futuro. É lá que vamos nos surpreender com uma onda de lembranças do que já vivemos e das pessoas que já passaram pela gente. E dentro das lembranças, existem as que inspiram e as que aterrorizam. As que inspiram existem pra nos lembrar de quanta coisa boa já vivemos e quão capazes somos de viver coisas ainda melhores, já as lembranças que aterrorizam são as que trazem à tona cada um daqueles momentos que nós não gostaríamos de ter vivido. O mérito aqui não é desqualificar a importância da dor na vida de uma pessoa, mas sim o desejo real e justo de sofrer menos nessa vida já sofrida.
Em cada beijo que damos, damos também um pedaço do que somos.
O mesmo funciona para os abraços e para as noites de sexo. Por isso, viver uma história com alguém é doar parte da própria vida pra fazer com que a vida da outra pessoa seja melhor.
Talvez por isso que nos abalamos tanto quando uma pessoa nova entra na nossa vida. E aí, assustados dada a importância desse momento, nos defendemos alegando medo de sofrer de novo ou alguma outra daquelas respostas que damos para tentar explicar porque as coisas não saem do lugar, até nos rendermos. É que do primeiro beijo até o último segundo juntos acontece uma troca de vidas; um empresta parte da própria pro outro. Nós damos permissão para um corpo estranho dormir ao lado do nosso, damos permissão para uma nova voz nos fazer companhia no dia a dia, damos permissão para que essa outra pessoa tenha a liberdade de falar sobre o que podemos melhorar. Por isso a tristeza é tão forte quando alguém vai embora da nossa vida. Porque ela não leva só os momentos que foram vividos; essa pessoa leva parte do que somos e do que fomos durante toda a história, dure 1 dia ou 100 anos.
Acreditar em alguém é o um investimento de alto risco. Mas é um investimento sempre válido.
No fim das contas, o negócio é que você nunca será esquecido.
Talvez a rotina e a lentidão do tempo para te trazer novidades te façam pensar que deixou de ser um para se tornar mais um, mas pelo contrário. Entenda que ninguém também vai ficar te lembrando como você foi importante para aquela pessoa, mas no que vale se apegar é na certeza de que você fez tua parte para tentar melhorar a vida daquela pessoa.
O famoso “viver intensamente cada segundo” significa que está nas nossas mãos a possibilidade de fazer com que um segundo qualquer se torne uma daquelas novas datas para serem lembradas. É trazendo para os menores exemplos que dá pra enxergar as maiores atitudes. Entenda que a sua lembrança faz morada na vida de quem já passou por você. De vez em quando esse alguém que já passou por você te encontra num momento da vida em forma de saudade. E isso tudo que estamos falando não é para servir de consolo, mas é pra te fazer enxergar uma verdade, te fazer ver que vale muito mais a pena ser real do que ser uma paisagem, que vale muito a pena aproveitar do poder que temos de melhorar vidas.
Não meça esforço, ele pode ser o último da sua vida. E vale a pena saber que o mínimo que fazemos pode ser o máximo que alguém pode ter. As pessoas não esquecem, só param de lembrar. Você sempre será lembrado, tipo um filme pra ver de novo.
Por Márcio Rodrigues em: http://umtravesseiroparadois.wordpress.com/2014/04/28/eu-sou-um-filme-pra-voce-assistir-de-novo/

''Vocês estão estragando tudo''


É difícil ter que continuar nadando nesse mar de gente sem coração.
É por isso que cada vez mais a gente vê tantas pessoas desacreditando sobre os mais bonitos sentimentos dessa vida.
Talvez seja por isso também que os refrões de mais sucesso são os de dor.
Vocês estão estragando tudo!
Esse negócio de entrar na vida de uma pessoa, ajudando a fazer com que 1 minuto se transforme em uma vida inteira, e depois sair dessa mesma vida sem mais nem menos, não é algo que se recomende pra ninguém.
Parece que ninguém mais se importa com ninguém.
As pessoas estão deixando de ser pessoas para se tornarem copos plásticos, daqueles que você usa e depois joga fora sem pensar duas vezes. A metáfora pode ser pobre mas nem por isso menos certeira.
Dizer que gosta de alguém se tornou motivo pra se afastar e não pra se aproximar; parece ser a pior coisa a se ouvir, parece que cria-se então um escudo ou algo do tipo “não me venha com essa história”. Aí vem gente que diz “calma, já sofri demais e não quero passar por isso de novo” e essa reação soa como uma vingança em outra pessoa que nem tem culpa de nada, e que até que prove o contrário, é só mais uma pessoa tentando ser feliz com alguém.
Confessar felicidade pela volta dos sorrisos, todos dedicados à alguém especial, também não é algo para se comemorar, é algo para prejudicar, para colocar por terra todos os planos.
O que vocês querem da vida então?
Não dá pra perceber na segunda palavra que a pessoa está abrindo a vida pra você entrar? Não tem como dizer pro coração: “goste um pouco mais devagar”. Quem consegue esconder que está gostando? Por quê então fazem tão pouco com o muito que tanto fazem por vocês?
Vocês estão estragando tudo!
É mais fácil conhecer uma pessoa que tem uma história triste pra contar do que uma feliz pra inspirar. E isso é culpa de vocês!
Isso é culpa de vocês que não sabem o que querem, que trocam de opinião como trocam de roupa, que passam de um amor pro outro com se fosse uma baldeação no metrô. A vida não é só de vocês que agem dessa maneira, não mesmo!
Um beijo é feito por duas bocas, que fazem parte de duas pessoas, onde cada uma tem um coração e uma reação diferente, onde cada uma aproveita de um jeito diferente. Isso significa que tudo o que você fizer que tenha relação com outra pessoa terá efeito nessa outra pessoa. A língua portuguesa resume isso em uma palavra: respeito.
O olho no olho depois de um beijo é o passaporte para fazer as malas e se mudar para dentro da vida da pessoa.
Mas por quê vocês estão estragando tudo, então?
Por quê vocês inventam tantas histórias como se lidassem com crianças recém nascidas? “Ah, porque eu não quero te ver mal”. Que saco, quanto mais você faz algo que não é sua vontade para não ver a pessoa mal, mais mal você está fazendo à ela. Se a sua vontade é ir embora e nunca mais telefonar, que seja dito isso e não algo do tipo: “Acho que você gosta mais de mim do que eu de você!”. Esta é uma das piores coisas a se ouvir!
Não se vive uma história pela competição, se vive pelo coração.
É este coração que diz o quanto está gostando, o quanto está fazendo bem; ele que diz o tamanho da vontade de planejar coisas e incluir alguém nesses planos. Não existe essa merda de história de alguém gostar mais que outro alguém, as pessoas gostam diferente, de jeitos diferentes, umas demonstram mais e outras menos. O que existe é o fim das coisas. Por mais cruel que seja. Existe o fim da vontade de continuar, de ligar, de perguntar se está tudo bem, de dizer que chegou em casa, de dizer pra onde está indo. Existe o fim, é isso, existe o fim, não existem desculpas, existe o fim das coisas.
“Ah você é uma pessoa perfeita, o problema sou eu e não você!”
Mas é claro que o problema está em vocês que dizem uma coisa dessas!
Ninguém é obrigado a gostar de ninguém e nem existe um contrato com data de validade das histórias, mas existem as pessoas reais que mergulham e vivem cada segundo construindo momentos incríveis, momentos dos dois, momentos da história dos dois. Também não existe ninguém perfeito. Nem dá pra falar que existe quem erra menos, porque voltamos na questão da competição. Mas existem erros e acertos, didaticamente dessa maneira. Custa falar que cansou e que não quer mais? Custa ser real pelo menos na hora do tchau? O que não dá pra entender é como vocês inventam coisas pra justificar a real vontade de vocês!
A vontade de não machucar só machuca mais.
A mentira pra esconder só traumatiza mais.
A preocupação em manter uma amizade só diminui as chances disso se tornar verdade.
Vocês estão estragando tudo!
Vocês e essas desculpas e esse jeito de lidar com as pessoas; jeito de lidar com o que as pessoas sentem. “Ah, mas você é sentimental demais, por isso fica mal assim!” É ISSO! Vocês precisam aprender que as pessoas não são iguais à vocês. Existem as que vão sofrer e vão chorar sangue com o fim de uma história, assim como existem as que vão sair pela porta sem olhar pra trás. O que não deve existir é essa falta de respeito de vocês para com todas as outras pessoas do mundo.
Valorize quem quis te dar um beijo, poderia ser qualquer outra pessoa, mas você foi a escolhida. Valorize quem te pede pra avisar se chegou bem em casa, poderia ser uma preocupação para qualquer outra pessoa, mas é por você. Valorize quem transa com você e te entrega o corpo, poderia ser pra qualquer outra pessoa, mas é com você. Valorize quem te pede desculpas, poderia ser qualquer mentira, mas é uma desculpa pra você. Que saco, valorize quem diz que gosta de você, poderia gostar de qualquer outra pessoa, mas gosta de você.
É tudo uma questão de valorizar o que realmente importa nessa vida: o coração das pequenas coisas; a origem. Ao invés de ver possessividade no pedido de “me avisa quando chegar”, veja como alguém que se preocupa. Ao invés de ver como quem reclama demais as conversas tipo “você parece distante, não me manda mais mensagem” veja como alguém que está tentando melhorar a vida dos dois.
Vocês, vendo com esses olhos egoístas, só estão estão estragando tudo!
Quem somos é tudo o que temos nesse mundo.
E por isso, somos responsáveis em fazer desse mundo algo melhor na medida do possível.
Existe amor dentro das pessoas, sabiam? Que vocês um dia percebam isso e parem de olhar só para os próprios umbigos e percebam que estão estragando tudo, antes que seja tarde demais. Vocês estão matando o que de melhor nós temos: nosso coração.
Por Márcio Rodrigues emhttp://umtravesseiroparadois.wordpress.com/2014/04/20/voces-estao-estragando-tudo/
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