segunda-feira, 28 de abril de 2014

''Eu sou um filme pra você assistir de novo''


Nós marcamos a vida das pessoas.
E aí depende da gente sobre qual maneira vamos marcar.
Tem palavras que renovam vidas, tem outras que destroem auto-estimas.
Tem pessoas que amaldiçoam perfumes e que nunca mais conseguem fazer com que esqueçamos delas ao sentir o mesmo cheiro outra vez qualquer. Tem gente que pega alguns dos refrões que gostamos pra si e custa para que consigamos ouvir novamente sem ter uma visita da lembrança. Nós somos tão submissos à nós mesmos.
Por isso nós gostamos de datas.
Datas servem pra marcar ainda mais a vida de uma pessoa na outra.
O primeiro beijo, o primeiro sim, a primeira vez, o primeiro filme, a primeira viagem, e tantos outros primeiros que construímos e que muitas vezes acabam se tornando eternos. Este somos nós: sempre em busca de motivos pra celebrar e as datas servem pra isso. Sem contar que não tem como não querer se prender a esse tipo de coisa, pois a sua memória pode não funcionar, mas o calendário estará sempre lá pra te lembrar no acaso de um segundo que aquele dia x não é so um dia x. Nós amamos motivos pra comemorar, nós amamos o “aquele dia que passamos juntos”.
Beijamos com a mão na nuca porque gostamos disso. É assim que gostamos beijar.
Pode ser que outras pessoas também o fazem, mas nós temos um jeito nosso de fazer e é esse jeito que será lembrado. Outros gostam de beijos com a mão no rosto e por aí vai. Na prateleira da vida tem uma caixinha de surpresas chamada futuro. É lá que vamos nos surpreender com uma onda de lembranças do que já vivemos e das pessoas que já passaram pela gente. E dentro das lembranças, existem as que inspiram e as que aterrorizam. As que inspiram existem pra nos lembrar de quanta coisa boa já vivemos e quão capazes somos de viver coisas ainda melhores, já as lembranças que aterrorizam são as que trazem à tona cada um daqueles momentos que nós não gostaríamos de ter vivido. O mérito aqui não é desqualificar a importância da dor na vida de uma pessoa, mas sim o desejo real e justo de sofrer menos nessa vida já sofrida.
Em cada beijo que damos, damos também um pedaço do que somos.
O mesmo funciona para os abraços e para as noites de sexo. Por isso, viver uma história com alguém é doar parte da própria vida pra fazer com que a vida da outra pessoa seja melhor.
Talvez por isso que nos abalamos tanto quando uma pessoa nova entra na nossa vida. E aí, assustados dada a importância desse momento, nos defendemos alegando medo de sofrer de novo ou alguma outra daquelas respostas que damos para tentar explicar porque as coisas não saem do lugar, até nos rendermos. É que do primeiro beijo até o último segundo juntos acontece uma troca de vidas; um empresta parte da própria pro outro. Nós damos permissão para um corpo estranho dormir ao lado do nosso, damos permissão para uma nova voz nos fazer companhia no dia a dia, damos permissão para que essa outra pessoa tenha a liberdade de falar sobre o que podemos melhorar. Por isso a tristeza é tão forte quando alguém vai embora da nossa vida. Porque ela não leva só os momentos que foram vividos; essa pessoa leva parte do que somos e do que fomos durante toda a história, dure 1 dia ou 100 anos.
Acreditar em alguém é o um investimento de alto risco. Mas é um investimento sempre válido.
No fim das contas, o negócio é que você nunca será esquecido.
Talvez a rotina e a lentidão do tempo para te trazer novidades te façam pensar que deixou de ser um para se tornar mais um, mas pelo contrário. Entenda que ninguém também vai ficar te lembrando como você foi importante para aquela pessoa, mas no que vale se apegar é na certeza de que você fez tua parte para tentar melhorar a vida daquela pessoa.
O famoso “viver intensamente cada segundo” significa que está nas nossas mãos a possibilidade de fazer com que um segundo qualquer se torne uma daquelas novas datas para serem lembradas. É trazendo para os menores exemplos que dá pra enxergar as maiores atitudes. Entenda que a sua lembrança faz morada na vida de quem já passou por você. De vez em quando esse alguém que já passou por você te encontra num momento da vida em forma de saudade. E isso tudo que estamos falando não é para servir de consolo, mas é pra te fazer enxergar uma verdade, te fazer ver que vale muito mais a pena ser real do que ser uma paisagem, que vale muito a pena aproveitar do poder que temos de melhorar vidas.
Não meça esforço, ele pode ser o último da sua vida. E vale a pena saber que o mínimo que fazemos pode ser o máximo que alguém pode ter. As pessoas não esquecem, só param de lembrar. Você sempre será lembrado, tipo um filme pra ver de novo.
Por Márcio Rodrigues em: http://umtravesseiroparadois.wordpress.com/2014/04/28/eu-sou-um-filme-pra-voce-assistir-de-novo/

''Vocês estão estragando tudo''


É difícil ter que continuar nadando nesse mar de gente sem coração.
É por isso que cada vez mais a gente vê tantas pessoas desacreditando sobre os mais bonitos sentimentos dessa vida.
Talvez seja por isso também que os refrões de mais sucesso são os de dor.
Vocês estão estragando tudo!
Esse negócio de entrar na vida de uma pessoa, ajudando a fazer com que 1 minuto se transforme em uma vida inteira, e depois sair dessa mesma vida sem mais nem menos, não é algo que se recomende pra ninguém.
Parece que ninguém mais se importa com ninguém.
As pessoas estão deixando de ser pessoas para se tornarem copos plásticos, daqueles que você usa e depois joga fora sem pensar duas vezes. A metáfora pode ser pobre mas nem por isso menos certeira.
Dizer que gosta de alguém se tornou motivo pra se afastar e não pra se aproximar; parece ser a pior coisa a se ouvir, parece que cria-se então um escudo ou algo do tipo “não me venha com essa história”. Aí vem gente que diz “calma, já sofri demais e não quero passar por isso de novo” e essa reação soa como uma vingança em outra pessoa que nem tem culpa de nada, e que até que prove o contrário, é só mais uma pessoa tentando ser feliz com alguém.
Confessar felicidade pela volta dos sorrisos, todos dedicados à alguém especial, também não é algo para se comemorar, é algo para prejudicar, para colocar por terra todos os planos.
O que vocês querem da vida então?
Não dá pra perceber na segunda palavra que a pessoa está abrindo a vida pra você entrar? Não tem como dizer pro coração: “goste um pouco mais devagar”. Quem consegue esconder que está gostando? Por quê então fazem tão pouco com o muito que tanto fazem por vocês?
Vocês estão estragando tudo!
É mais fácil conhecer uma pessoa que tem uma história triste pra contar do que uma feliz pra inspirar. E isso é culpa de vocês!
Isso é culpa de vocês que não sabem o que querem, que trocam de opinião como trocam de roupa, que passam de um amor pro outro com se fosse uma baldeação no metrô. A vida não é só de vocês que agem dessa maneira, não mesmo!
Um beijo é feito por duas bocas, que fazem parte de duas pessoas, onde cada uma tem um coração e uma reação diferente, onde cada uma aproveita de um jeito diferente. Isso significa que tudo o que você fizer que tenha relação com outra pessoa terá efeito nessa outra pessoa. A língua portuguesa resume isso em uma palavra: respeito.
O olho no olho depois de um beijo é o passaporte para fazer as malas e se mudar para dentro da vida da pessoa.
Mas por quê vocês estão estragando tudo, então?
Por quê vocês inventam tantas histórias como se lidassem com crianças recém nascidas? “Ah, porque eu não quero te ver mal”. Que saco, quanto mais você faz algo que não é sua vontade para não ver a pessoa mal, mais mal você está fazendo à ela. Se a sua vontade é ir embora e nunca mais telefonar, que seja dito isso e não algo do tipo: “Acho que você gosta mais de mim do que eu de você!”. Esta é uma das piores coisas a se ouvir!
Não se vive uma história pela competição, se vive pelo coração.
É este coração que diz o quanto está gostando, o quanto está fazendo bem; ele que diz o tamanho da vontade de planejar coisas e incluir alguém nesses planos. Não existe essa merda de história de alguém gostar mais que outro alguém, as pessoas gostam diferente, de jeitos diferentes, umas demonstram mais e outras menos. O que existe é o fim das coisas. Por mais cruel que seja. Existe o fim da vontade de continuar, de ligar, de perguntar se está tudo bem, de dizer que chegou em casa, de dizer pra onde está indo. Existe o fim, é isso, existe o fim, não existem desculpas, existe o fim das coisas.
“Ah você é uma pessoa perfeita, o problema sou eu e não você!”
Mas é claro que o problema está em vocês que dizem uma coisa dessas!
Ninguém é obrigado a gostar de ninguém e nem existe um contrato com data de validade das histórias, mas existem as pessoas reais que mergulham e vivem cada segundo construindo momentos incríveis, momentos dos dois, momentos da história dos dois. Também não existe ninguém perfeito. Nem dá pra falar que existe quem erra menos, porque voltamos na questão da competição. Mas existem erros e acertos, didaticamente dessa maneira. Custa falar que cansou e que não quer mais? Custa ser real pelo menos na hora do tchau? O que não dá pra entender é como vocês inventam coisas pra justificar a real vontade de vocês!
A vontade de não machucar só machuca mais.
A mentira pra esconder só traumatiza mais.
A preocupação em manter uma amizade só diminui as chances disso se tornar verdade.
Vocês estão estragando tudo!
Vocês e essas desculpas e esse jeito de lidar com as pessoas; jeito de lidar com o que as pessoas sentem. “Ah, mas você é sentimental demais, por isso fica mal assim!” É ISSO! Vocês precisam aprender que as pessoas não são iguais à vocês. Existem as que vão sofrer e vão chorar sangue com o fim de uma história, assim como existem as que vão sair pela porta sem olhar pra trás. O que não deve existir é essa falta de respeito de vocês para com todas as outras pessoas do mundo.
Valorize quem quis te dar um beijo, poderia ser qualquer outra pessoa, mas você foi a escolhida. Valorize quem te pede pra avisar se chegou bem em casa, poderia ser uma preocupação para qualquer outra pessoa, mas é por você. Valorize quem transa com você e te entrega o corpo, poderia ser pra qualquer outra pessoa, mas é com você. Valorize quem te pede desculpas, poderia ser qualquer mentira, mas é uma desculpa pra você. Que saco, valorize quem diz que gosta de você, poderia gostar de qualquer outra pessoa, mas gosta de você.
É tudo uma questão de valorizar o que realmente importa nessa vida: o coração das pequenas coisas; a origem. Ao invés de ver possessividade no pedido de “me avisa quando chegar”, veja como alguém que se preocupa. Ao invés de ver como quem reclama demais as conversas tipo “você parece distante, não me manda mais mensagem” veja como alguém que está tentando melhorar a vida dos dois.
Vocês, vendo com esses olhos egoístas, só estão estão estragando tudo!
Quem somos é tudo o que temos nesse mundo.
E por isso, somos responsáveis em fazer desse mundo algo melhor na medida do possível.
Existe amor dentro das pessoas, sabiam? Que vocês um dia percebam isso e parem de olhar só para os próprios umbigos e percebam que estão estragando tudo, antes que seja tarde demais. Vocês estão matando o que de melhor nós temos: nosso coração.
Por Márcio Rodrigues emhttp://umtravesseiroparadois.wordpress.com/2014/04/20/voces-estao-estragando-tudo/
Textos com temas relacionados:
http://northonferreira.blogspot.com.br/2014/01/nao-somos-lixo-uma-cronica-sobre.html
http://northonferreira.blogspot.com.br/2014/02/diz-que-ama-ser-solteira-mas-chora.html



sexta-feira, 28 de março de 2014

Uma carta de desamor


Me desculpe por ter tomado a iniciativa. Me desculpe por ter escrito. Me desculpe por ter ligado. Me desculpe por eu ter voz. Me desculpe por ter dito sim. Me desculpe por ter gemido. Me desculpe por ter gozado. Me desculpe por eu ter voz. Me desculpe pelos machucados que seu ex deixou em você. Me desculpe por eu ter vindo logo atrás dele. Me desculpe por querer entender seu silêncio. Me desculpe por eu ter voz. Me desculpe por eu não ter usado máscara. Me desculpe por desejar alguma intensidade. Me desculpe por desejar. Me desculpe por eu ter voz.
Me desculpe pelo que foi ruim. Me desculpe pelo que foi bom. Me desculpe pelo atrevimento de supor que eu merecia o que de bom aconteceu. Me desculpe por eu ter voz. Me desculpe por eu ter tirado a roupa. Me desculpe por eu ter mostrado meu corpo. Me desculpe por eu ter gostado de mostrar meu corpo. Me desculpe por eu ter voz. Me desculpe por eu ter escrito coisas lindas para você. Me desculpe por você não ter entendido um terço do que eu escrevi. Me desculpe por você ter me achado ousado demais. Me desculpe por eu ter voz.
Me desculpe por, em algum momento, eu ter te amado. Me desculpe por, em algum momento, eu ter te achado bonita. Me desculpe por, em algum momento, eu ter me achado bonito. Me desculpe por eu ter voz. Me desculpe pelos seus erros de português. Me desculpe pelos erros de português do seu novo namorado. Me desculpe pelo seu novo namorado achar margarida uma flor pobre. Me desculpe por eu ter voz. Me desculpe por você torcer para o Corinthians. Me desculpe se uma barata entrar na sua cozinha algum dia. Me desculpe pelos 130 km de congestionamento em São Paulo agora. Me desculpe por eu ter voz.
Mas, sobretudo, me desculpe por pedir essas ridículas, inúteis e dolorosas desculpas. Que, naturalmente, não são para você, afinal, porcos não reconhecem pérolas.
-
Adaptação da Obra Original ''Uma carta de desamor'', de Stella Florence.

domingo, 16 de março de 2014

A carta que recebi dela

Você se esconde de mim e eu procuro. Procuro no meio das ruas, furando os carros, indo na direção contrária pra não ver o semáforo gritando em vermelho, pra não ter que parar e perder tempo parada sem procurar você por aí e olha, eu sinto muito, eu sinto mesmo quando disse que não vinha te ver hoje, sinto mais ainda por não ter visto sua roupa nova, por não ter escrito cartão, por não ter estado aqui.
Eu demorei pra chegar porque tava largada lá em casa, com medo e cerveja, repetindo pra mim no reflexo do vidro: ''ei, moça, você gosta dele, por que tanto medo de se entregar assim? Por que essa coisa de que você não precisa de ninguém quando claramente sofreria se ele fosse embora de vez?'', daí eu levantei, peguei a chave do carro, parei na porta e olha, quase não consegui abrir a maçaneta porque eu tremia. Engraçado isso porque eu me visto bem, com segurança, pra passar aquela ideia de que eu sou uma mulher em quem eles podem confiar, uma mulher que carrega o mundo nas costas e , ainda assim, me vi ali perdida, pequena, confusa, mas eu o amo, então fui em frente, porra!
Não consegui ligar o carro. Suei. Suei pra caralho e achei que fosse te perder porque eu sempre estrago tudo. Fiquei naquela de ligar ou não, liga logo, não ligo, ele vai descobrir as minhas manias feias e vai dar o fora, vai dar o pé, vai jogar os meus presentes no lixo e vai me matar dentro dele, vai chegar um dia e dizer que se apaixonou por uma outra mulher, uma cantora, isso, uma cantora, e contar que ela tem uma voz bonita e canta com violão pra ele, e eu vou me amargurar de tal forma, vou fingir que vou ficar bem, mas sei que vou morrer por dentro porque ele tá me matand...''e olha que besteira é essa de pensar assim? ele tá aqui agora e não no futuro, moça, vai logo atrás dele!''
E eu fui. Vim, na verdade, e cê já tinha ido embora.
Ô, meu bem, me espera e não vai, não. Me espera aí, parado num futuro-quase-concretizado, porque eu não quero usar teu nome numa frase no passado, porque eu não quero ter que explicar a burrada que eu fiz de não ter vindo te buscar logo. Larga essa mala na escada rolante e se perde no aeroporto com a sua roupa nova que cê queria tanto me mostrar, eu te grito, uso alto-falante, anuncio o teu nome no visor e te encontro antes de você ir, te impeço, por favor, meu bem, guenta mais um pouco que eu tô chegando. Faz aquela cara de bravo, mas me deixa te ver, deixa eu te fazer presente, me fazer presente, construir uma casinha pro teu cachorro e largar a cerveja e o medo um pouco de lado pra te beijar a testa e dizer que fico, eu fico pelo bem de todos e felicidade geral da minha vida, eu fico porque preciso olhar mais vezes pros seus olhos e cair pra dentro de você de manhã, me espera, vai. E é sobre o tempo que eu tanto prezo, sobre sempre estar na hora que eu erro, dessa vez eu me atrasei e não tem justificativa, mas sabe aquela coisa de que as coisas boas da vida sempre fogem do planejamento? Cê saiu de todas as linhas do meu Excel e eu tô indo atrás de você pra te buscar, pra te parar, espera eu passar por essa merda desse trânsito e me diz que fica, que aceita as minhas desculpas e que me aceita também.
Me espera, amor, que eu tô chegando pra te salvar do mundo.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Uma homenagem aos babacas que passaram por nossas vidas



Todo mundo já teve (ou vai ter) um babaca na sua vida. Os babacas (podem ser homens ou mulheres) são aquelas pessoas que estão mandando claras mensagens de que não estão nem aí para você e ainda assim você insiste. Você resiste. Você persiste.
O babaca é aquela pessoa que quando você cita o nome dela numa roda de amigos, todos eles fazem cara feia. Porque seus amigos te amam e querem seu bem. E o babaca não. O babaca é aquela pessoa que quando você finalmente consegue se livrar dele, quando, de fato, a existência dele não age mais como uma toxina no seu corpo, você não consegue acreditar que pôde se envolver com alguém assim.
Ainda assim, agradeça ao babaca por ele ter entrado (e saído! É importante que ele saia!) da sua vida.
Certamente o babaca fez você valorizar mais o amor. Fez você ver com clareza o que é ser bem tratada; o que é ser amada; o que é ser desejada por alguém. Não por ele, é lógico. Mas pelos outros que virão depois (ou os que vieram antes e você deixou passar).
O babaca faz você entender que amor correspondido não é uma coisa fácil. Não basta o papo ser legal e o sexo ser incrível. Amor correspondido não é uma flecha que num dia qualquer atinge seu babaca e ele percebe que te ama. Talvez ele tenha te amado. Talvez ele tenha tentado. Mas não é tão simples assim. Por isso quando você conhece aquela pessoa que te ama de verdade, você valoriza muito mais esse amor. Sem contar que o primeiro babaca da sua vida, aciona um radar para outros babacas. Agora você vai conseguir identifica-los com mais precisão e, assim espero, livrar-se deles na primeira oportunidade.
O babaca te prepara para os trancos e barrancos da vida amorosa. Ele dá uma ligeira endurecida naquele seu coração que antes parecia uma bola gigante de manteiga. Só não deixe que ele endureça demais. Vamos combinar que uma consistência de pudim é o ideal, tá?
Tudo o que você sofreu com o babaca, serviu para mostrar que você aguenta e ninguém morre de amor. E quando aquela pessoa legal aparecer na sua vida você vai estar mais madura, mais atenta e mais preparada para receber e retribuir todo esse amor. Por isso tudo que ele te ensinou, hoje agradeça ao seu babaca (mas agradeça mentalmente, não precisa mandar inbox e recomeçar o caso tóxico de vocês, por favor!).


Por Andréa Romão em: http://www.casalsemvergonha.com.br/2014/03/06/agradeca-aos-babacas-que-passaram-pela-sua-vida/

domingo, 2 de março de 2014

Cine Pensamento




De vez em quando, em noites saudosistas, em horas nostálgicas, em dias chuvosos ou em momentos reflexivos, me permito assistir o nosso filme. Vou para aquele canto na memória assistir a uma sessão especial de cinema. Vou sozinho, escondido, como se fosse algo proibido.
Na tela, as projeções me fazem rir. As suas palhaçadas durante o almoço ou a expressão do seu rosto quando um filme te irritava me fazem gargalhar. Poderia dar replay nesses momentos sem parar. Saiba que, pra mim, eles são antológicos.
Mas, como todo filme, tem aquele instante em que algo dá errado e a gente fica a gritar conselhos aos protagonistas, como se fossem nos ouvir. E esse sou eu, berrando para mim mesmo e para você, mas ninguém me dá ouvidos. Quem me dera poder refazer esse roteiro.
Que revés, não? Agora, sendo o espectador dessa história, vejo cada falha. Cada detalhe que nos passou batido quando éramos os personagens da trama. Uma frase dita com entonação errada sem pedido de desculpas. Um olhar distante, sem o outro querer trazê-lo de volta. Uma ausência de diálogo. As falácias dos personagens coadjuvantes. Um abismo se formando, sem ninguém tentar impedir ou construir uma ponte que impedisse o afastamento brutal.
Esse é um daqueles longas com final surpreendente (e triste). Se estivesse acompanhado nesta sessão, com certeza veria olhares decepcionados e torcedores frustrados. É por isso que venho só para cá. Para não ter que lidar com perguntas difíceis e em tom indignado do tipo: “Mas por que eles não ficaram juntos?”. De indagações, já bastam as minhas.
Quando as luzes da sala acendem, anunciando o fim da exibição, saio e tranco a porta. Semana que vem, quem sabe, talvez eu volte. Ou no próximo mês. Ou até um novo filme entrar em cartaz. Mas, enquanto isso não acontece, “você e eu” ainda é o meu favorito.



domingo, 23 de fevereiro de 2014

Cuida de mim





Você não entende, mas eu peço abrigo. Um abrigo bem claro, bem na minha frente, que dissipe frio ou incômodo qualquer. Não entende e me olha como se passasse por mim na rua, como se a vista do horizonte fosse maior que eu, como se eu fosse uma alegoria trançada num adorno qualquer. Eu não peço esmola, eu peço abrigo afetivo de verdade. Queria mesmo é que você parasse pra perguntar como foi o meu dia. Foi bom, tô bem, eu digo. Bom e bem são sinônimos de toda crise interna que a gente não consegue afugentar, não acha?
Eu teria curiosidade em te conhecer abertamente. Te levaria prum quarto parado numa estrada qualquer pra te devorar. Ouviria as suas histórias e te pintaria nos meus escritos. Esboçaria um pouco dos teus olhos e das olheiras, que é pra te dar um ar humano, e reconheceria suas falhas no papel. Me pinta em aquarela pra me dar vida? Me tira daquele meu apartamento monótono que só faz de mim prisioneiro de alguma coisa apática, de uma vida que eu jurei pra mim mesmo que nunca viveria antes de guardar meus sonhos no baú e sair por aí vivendo o que a gente chama de vida. Tô bem, foi bom, digo quando o telefone toca. E na minha voz fica a marca dos trilhos rangendo, do peito rasgando, da carne se consumindo por dentro.
Bem e bom são sinônimos de um apocalipse pessoal.
Você não me conhece, mas eu suponho que poderíamos ser amantes. Ou amadores. Sempre achei que todo amante tivesse algo de amador e por isso as derrapadas pelo caminho. Poderíamos também ser amigos e você me contaria da tua vida com frequência pra me arrancar da realidade? Eu te mandaria postais e a gente viveria nessa espera ansiosa de receber respostas. Promete pra mim que me escreve? Descreve, me escreve no papel, me rabisca um pouco pra eu sentir que não sou imaginado no mundo. Que eu existo e tenho uma âncora feito você pra botar meu pé no chão.
Eu te confesso que tenho um porão escondido dentro de mim. Vez ou outra eu revisito pra checar se a umidade já corroeu as vigas, as dobras das portas, as frestas do assoalho. Na maioria das vezes eu espirro por conta da alergia e não tem ninguém ali me oferecer um lenço. Tudo bem, sou precavido, tenho levado o meu há anos a fio quando aprendi que a gente tem que se embalar na gente senão a coisa toda despenca. Mas olha, eu faria do meu escuro um lugar bonito pra você me visitar. Limpo tudo e deixo as coisas boas em cima dos móveis e um porta-retrato de nós dois. Não precisa vir hoje ou nem amanhã. Só vem um dia e me tira dessa cidade perdida, dessa confusão que implica em me deixar com dois cigarros na rua e uns pensamentos que cortam, me tira desse conformismo absurdo e me afunda. Me afoga, me enforca, me joga do alto de um edíficio, mas não me deixa viver essa coisa que não me deixa ver todas as coisas boas que os seus olhos castanhos contam.
Só vem um dia, larga as malas na porta, bota o pé pra dentro de casa e cuida de mim.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Diz que ama ser solteira, mas chora sozinha de noite querendo um amor de verdade



 Não se fazem mais relacionamentos como antigamente: nisso a minha querida vozinha tem toda a razão. Temos mais companheiros de bar do que amigos, mais fotos com filtros bacanas no Instagram do que momentos verdadeiramente especiais, e mais sexo casual do que relacionamento sincero. Até aí tudo bem. Tem muitas coisas nessa geração que, convenhamos, não caem nada mal.
O que chama atenção nisso tudo é a necessidade que a maioria dessas pessoas tem de se auto afirmar independentes e desapegados.  A facilidade com que se nega os sentimentos verdadeiros soa falsa na medida em que essas mesmas pessoas se revelam cada vez mais carentes.
Lamentavelmente, parece que não estamos lidando com uma geração de solteiros felizes,  satisfeitos com suas fotos de garrafas de vodka na internet. Não se trata de pessoas que não se importam com a ligação (ou falta de) do dia seguinte. Todo mundo parece livre, feliz e bem relacionado. No termo imortalizado por essa geração: parecem desapegados. Mas não são.
A moça que posta foto “no barzinho com as lindas” é a mesma que liga pro ex depois de algumas doses. O moço que diz que nunca vai “usar as algemas” é – muitas vezes –  o mesmo que espera uma mulher bacana com quem possa ter dois filhos e um cachorro numa casa grande. Isso não significa que todo mundo sonha em se casar (até por que relacionamentos sinceros não necessariamente precisam ser provenientes de casamento), mas o fato é que todo mundo precisa de amor.
Beber vodka é bom; Sair com as amigas é bom; Carnaval solteiro é bom (e bota bom nisso) – mas todo mundo precisa de um pouco de apego. Todo mundo precisa de amigos que liguem na segunda-feira, de companheiros com quem contar depois que a farra termina.
Somos, na verdade, tão cobrados pela perfeição, que sentimos uma necessidade quase irracional de demonstrar que nos bastamos. Que somos fortes e coisa e tal. Mas a grande verdade é que a geração do desapego não consegue se valer. Ela vai se escorando nas garrafas de vodka, se arrastando pelas baladas da vida com o coração vazio e um incômodo triste causado pela ditadura da independência (por mais paradoxal que isso pareça).
É uma geração vitimada por regras cruéis que a modernidade extrema nos trouxe – por que nada pode ser mais cruel do que uma regra que diz que é proibido amar. É proibido se importar, sob pena de sermos massacrados pelo desapego alheio. A tristeza nisso tudo é que essa geração perde a melhor coisa da vida que é amar de verdade. Entregar-se, sentir, arriscar-se a levar um pé  na bunda ou uma queda feia. Em outras palavras: Apegar-se.



Por Nathalie Macedo em: http://www.casalsemvergonha.com.br/2014/02/05/a-verdade-sobre-a-geracao-do-desapego/


sábado, 1 de fevereiro de 2014

Eu escolhi você





Eu escolhi você por causa do seu sorriso assumido de canto. De um jeitinho sacana de quem sabe (sabe?) que nasceu para ser livre, leve, solta e filha da puta. Foi por causa desse seu ar afirmando que consegue o homem que quiser. Mas, principalmente, pelos seus abraços apertados de quem diz que eu sou um paradoxo sentimental: seu tudo e também nada. Que eu tô aqui agora, mas não preciso estar aqui pra sempre. Que no fundo você me ama, mas, da boca pra fora, não tem sentimento nenhum por mim.
Foram as discussões baratas que me dão vontade de te matar. Ser passional ainda é crime? As briguinhas por um ciúme besta que você nunca assume. E as vezes que você discorda só porque adora me ver irritado. Foi por causa dos pratos quebrados, das roupas que eu joguei pela janela e das noites em que eu disse para você nunca mais voltar. Mas voltei, não foi? Foi também pelos dias que você não voltou, pelos beijos que você não deu e, além de tudo, pelas declarações silenciosas que emite em gestos, quando não grita amor, mas ama.
E foi pelo seu jeito de cuidar. De me cuidar. De perto, de longe, com os braços ao meu redor ou só com os olhos. Eu nunca precisei de ninguém, mas de alguma forma eu me vi precisando do seu cuidado. E você me ganhou ali, quando viu a minha parte não-tão-segura-assim escondida por trás de paredes que aprendi a construir nas telas, talvez por falta de cor, talvez por falta de aquarela. Pena que me fiz em uma redoma de vidro que você quebrou.


Eles disseram que nunca daria certo. E foi um pouco por isso também. Porque eu sou teimoso, marrento e quero sempre mostrar para o mundo que eu luto pelo o que eu quero. E eu lutei por você, a princesa desencantada, que nem chegava a ser sapo, que, segundo eles, só tinha defeitos. Eu lutei por você enquanto você lutava com todas as forças para fingir que não me queria. Pra não demonstrar que, escondida, você estava ali me escolhendo também.
Foi porque você me desarmou (e me deixou te desarmar por completo). E nós dois ficamos desnudos e de peito aberto para o que a gente resolveu viver. Assim, contra tudo e contra todos – até contra nossos nós e nossas personalidades que não sobreviveriam no Coliseu.
Foi, principalmente, porque você não fez questão. Não gritou que me amava e, por isso, sem querer, derrubou os obstáculos. Me quebrou inteirinho para, depois, me reconstruir encaixando com você. E aí, parou de lutar e me deixou te fazer só minha.
Entendeu? Foi por isso.
Foi por isso que eu escolhi você.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Não Somos Lixo - Uma Crônica Sobre Relacionamentos Descartáveis







- Sou de uma geração em que as pessoas consertam as coisas ao invés de simplesmente jogar fora.
Disse ele parado ali, completamente estarrecido pela brisa fria da porta enquanto ela se preparava para fechar definitivamente os trincos e deixar um capítulo inteiro da sua vida para trás. Os olhos marejados de angústia e abandono não sabiam mentir o passado de brigas, mágoas e tormentas. É que às vezes a gente machuca o outro mesmo sem saber, assim, nas pequenas indelicadezas do cotidiano. Quando se vê, a embarcação já está avariada demais para continuar a travessia. Os pedaços se desconstroem ali mesmo, numa imensidão de sentimentos, palavras e reticências. E como é fácil abandonar os destroços daquilo que um dia fez viagens tão extraordinárias. O desamparo hoje vive lado a lado com a solidão. Em uma sociedade carente de cuidados, os relacionamentos muitas vezes são tratados como objeto descartável e jogados no lixo com a mesma facilidade com que se despreza uma folha de papel rabiscada.
Manter uma dança a dois é quase tão difícil quanto encontrar alguém para subir ao palco. Se tudo fossem flores se chamaria jardim e não relacionamento. Confesso achar extremamente complicado essa história de colocar alguém com uma trajetória de vida, criação e valores completamente diferentes dos nossos dentro das páginas do nosso livro. A gente veio por um caminho e o outro por uma trilha completamente diferente, sendo assim, é mais do que esperado que ambos se comportem de formas distintas frente a possíveis contratempos. Pela falta de tato em compreender as andanças do outro, surgem as brigas e discussões que instigam um dos dois a abandonar o navio mais cedo. É tão comum a gente jogar tudo para o alto por tão pouco. Tanto sentimento bonito que demorou deliciosos parágrafos para ser construído. Uma divergência de opiniões, um desacordo momentâneo, verde ou rosa, calabresa ou quatro queijos, Paris ou São Paulo, direita ou esquerda, norte ou sul, passado ou futuro. Tudo, dos mínimos aos maiores percalços, quando a relação não está bem consolidada, parece ser motivo de renúncia. É muito mais fácil terminar uma parceria que não está dando certo do que simplesmente tentar acertar os pontos de discordância para que o “tique-taque” do relógio seja encantadoramente o mesmo. No mundo da facilidade, quando algo se quebra, na medida do possível, se troca por outro. Premissa que infelizmente desancora muitos romances por aí.
De fato, à primeira vista, pode parecer muito mais fácil ficar à deriva. Afinal de contas o mar está abarrotado de peixes. Mas se a cada turbulência for necessário recomeçar o fluxo de novo e de novo e de novo, a terra nunca será vista. Imagine os grandes navegadores voltando ao porto na primeira turbulência. Embarcar no caminho do outro também faz parte de uma viagem duradoura. Descompassos sempre existirão aqui, ali ou acolá. O que importa mesmo é o quanto de você está de fato entregue nesta parceria, e só. Caso contrário, é apenas um círculo vicioso de troca de protagonistas. Não existem relacionamentos, pessoas ou momentos perfeitos. O que existem são pessoas realmente dispostas a velejar não importa as condições do tempo. O amor é um vento poderoso. Quando a gente deixa, quando o coração tá cheinho de permissividade ele consegue ser brisa, ventania e furacão na proporção certa, só direcionar as velas que o amor faz o resto.
Relacionamento exige muito mais que disposição, demanda constância e perseverança. Uma vez que os rumos da embarcação são estabelecidos, na grande maioria das vezes uma boa conversa e respirar (bem fundo) são capazes de fazer milagres. Não é porque sua xícara preferida lascou que ela perdeu todo o simbolismo afetivo ou o aroma doce do café da sua mãe. Vai dizer que a comida da vovó na panela que mal se aguenta no fogão não é muito melhor do que muita massa de restaurante requintado?!
Se não tem jeito mesmo, pule da prancha e continue a nadar. Mas se ainda resta um pontinho que seja de vontade e bem querer, reparar as arestas, por mais complexo que possa parecer, pode ser muito mais prazeroso e recompensador do que começar o jogo do amor do zero. Um brinde aos recomeços e outro tintilar de taças ainda maior para as permanências.
Saiu pela porta porque o livre arbítrio a permitia. Voltou, porque sabia que alguém a esperava pacientemente segurando as chaves deixadas impetuosamente para trás.
- Trouxe a cola – disse ela.
E um coração novinho em folha também.



Por Danielle Daian em: http://www.casalsemvergonha.com.br/2014/01/27/nos-nao-somos-lixo-%E2%80%93-uma-cronica-sobre-relacionamentos-descartaveis/



quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Sobre tempos e tempos





Houve um tempo em que eu não te conhecia. Nesse tempo eu não conhecia sobre o amor, nem me interessava por nada do tipo. Houve um tempo em que você apareceu, avassaladora, na minha vida. Entrou sem pedir licença, com seus lindos olhos castanhos e seu sorriso estupendo. Nesse tempo eu me senti apaixonado, achei que era amor, mas não era. E você foi embora tão rápido quanto chegou. Após isso, Houve um tempo em que só te vi uma vez no ano. Houve um tempo em que ouvia sua voz e sua risada nas escadas mas não ousava abrir a porta e te encontrar. Houve um tempo em que passei 365 dias sem te ver nem te ouvir. Nesse tempo nada tinha muito sentido, mas eu inventei sentido pra muitas pessoas, só inventei. Houve um tempo em que soube que você estava quase casada. Nesse tempo, perdi todas as esperanças, todas. Até você reaparecer livre, leve e solta, e decidir ficar. Nesse tempo uma chama reacendeu dentro de mim. Houve então um tempo de trevas na minha vida. Nesse tempo eu achei que iria sucumbir, mas você segurou minha mão. Você me abraçou, e decidiu entrar e trancar a porta por dentro. Houve um tempo em que nos conhecemos de verdade, e nos amamos, e nos desejamos. Nesse tempo a gente se bastava. Nesse tempo eu era seu e você era minha, meus beijos eram seus e os seus eram meus, nossos corpos pertenciam um ao outro. Nesse tempo eu descobri o que é amor de verdade. Nesse tempo eu cresci. Nesse tempo conheci coisas, sons e sabores que nunca imaginei conhecer. Mas, então, houve um tempo em que a inveja alheia chegou. Ah, a inveja... Talvez seja esse o maior mal da humanidade... Nesse tempo a inveja deu as mãos para a pontinha de indecisão e as lembranças do passado que haviam em você...e aí você me deixou. Sem mais nem menos, como se eu tivesse feito algum mal. como se nada tivesse existido... Como se eu não tivesse te feito feliz, como se eu não pudesse fazer mais... Nesse tempo tenho dormido agarrado com a saudade e andado com a esperança de que um dia haja um tempo em que você volte,entre, feche a porta por dentro e jogue a chave fora.




terça-feira, 7 de janeiro de 2014

O que fazer com a saudade?



Absolutamente nada.
Ela irá entrar pela porta da frente, sem convite. Sentar no seu sofá, vestindo suas roupas e com o controle da tevê nas mãos. E, em pouco tempo, será tão familiar que ficará até difícil pedir que se retire. Então você irá observá-la, petulante, enquanto ela cresce bem diante dos seus olhos, como um grande pão sendo fermentado, mesmo que você se recuse a alimentá-la. Saudade se retroalimenta, é autossuficiente como você gostaria de ser.
A saudade é ousada e indiferente, não se importa se você é um péssimo anfitrião, se não oferece um café, se não dispõe um travesseiro para os pés, se tenta – inutilmente – ignorar sua presença. De alguma forma inexplicável, a saudade sabe que você não pode com ela. Você também sabe. E vai deixando ela ficar enquanto torce para que o estrago não seja grande. E ela vai se espalhando pelas paredes, pelos móveis, em todos os cômodos, pelas tubulações de ar, deita na sua cama, toma conta de tudo...
Sufocante, ela te olha bem nos olhos, de forma profunda e penetrante, de forma a não te deixar esconder nada. Nesse momento preciso, vulnerável, você pede que ela se retire. Ela se recusa e se encosta em seu ombro. Você consegue sentir o cheiro dela, um nostálgico perfume de dias felizes, e sabe que precisa fazer algo a respeito, pois não quer chorar. E a saudade tenta te convencer a chorar, porque só então ela poderá te abraçar sem pedir permissão.
Você sabe que essa maldita inescrupulosa conseguiu exatamente o que queria: adormecer em seus braços, de forma pesada, penosa. A saudade sabe que venceu e você tenta enganar a si mesmo diante do espelho dizendo que um novo dia virá e que ela partirá, quem sabe para a casa de alguém que perdeu um familiar ou um ente querido, ou alguém que está longe da pessoa amada, ou uma criança qualquer que perdeu seu brinquedo favorito...
A saudade é onipresente. No dia seguinte você irá acordar e ela estará lá, deitado ao seu lado, e, antes de despertar totalmente, você sentirá suas mãos sujas apertarem seu peito e você berrará de dor – em silêncio – porque, como todos sabemos, a saudade é surda.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Estou desistindo de você




Você tá aí, quieta demais, e vem me olhar com essa cara de quem não imaginava, de quem nunca imaginou, que um dia eu iria embora. Tá aí me encarando descrente como sempre fez. Lançando um olhar de reprovação doloroso que duvida de mim. Duvida de mim e duvida de tudo o que eu já fiz, já passei, já corri e já deixei por você. Dessa vez eu bato a porta e apago a luz, dessa vez eu selo a carta e endereço pro lugar certo, dessa vez não tem mais “outra” na frente pra relembrar das segundas chances.
Tô me livrando de você, te desalojando. Te colocando numa caixinha de música velha que vai parar de tocar no exato momento em que eu tirar os olhos de você. Tô te pintando no rosto, meu bem, como listras de guerra. Tô quebrando pratos, deixando a pia mais limpa pra não sujar as tuas mãos. Tô te pintando com laço e de vestido, pra não me esquecer de como você se vestia pro espelho, enquanto arremessava o amor do segundo andar.


Tô te implorando lentamente pra dizer alguma coisa que me pare enquanto eu declaro que tô desistindo de você. Tô levando na mala só o que é meu, e deixo o que era nosso pra você fazer fogueira do passado. Queime os retratos, as correntes, o desprezo e me jogue junto. Talvez assim eu sinta, pelo menos uma vez, alguma coisa que não seja frieza. Tô levando tudo num gerúndio lento, que se arrasta com justificativas pela casa, e a única coisa que você faz é ficar aí me encarando. Marcada, estagnada, calada. Depois da dor toda, você escolheu ficar manchada em mim, feito tatuagem. E nada mais.
Tô desistindo da lembrança de que, talvez você nem lembre, um dia desses a gente se bastava. Do apelo comovido dos presentes de aniversário, dos alarmes silenciados pra me atrasar agarrado em você. Tô desistindo de quem eu amo, cuido, consolo e me fez ver tudo virar passado numa apropriação indevida de nós. Tô desistindo quando não queria mais desistir.
Então usa esse infinitivo pra parar esse gerúndio doído. Me para e grita pra mim que ainda tem lugar pra nós dois aqui antes que eu já tenha desistido. Diz alguma coisa enquanto eu me despedaço e me ponho nas caixas. Diz pra parar a lágrima descendo no meu rosto, diz pra ser clara de vez e me consentir um abrigo renovado. Diz pra mim que muda, por favor, e que muda a minha vida junto. Diz que se lembra de mim e que teus olhos vidrados não são esquecimento. Diz que não me jogou no seu limbo pessoal. Diz e me impede, rápido, de desistir de você.


domingo, 22 de dezembro de 2013

Sobre as lágrimas de um homem que chora






Chorei sim, quando você disse que era o fim. Chorei porque doeu de verdade, porque sou de verdade. Porque tudo foi de verdade pra mim, ou pareceu ser. Chorei porque não tinha ninguém me controlando, porque era eu e minhas palavras contra você e as palavras e sentimentos de outra pessoa.

Chorei porque perdi você para a maldade alheia. Chorei porque perdi por medo de perder. Chorei na sua frente. E por mais vergonhoso que aquilo pareceu ser, não foi. Não há vergonha em ser sincero, em ser de verdade. Não há vergonha em não ser orgulhoso, o orgulho destrói.

Chorei porque você estava e está perdida e não aceita ajuda. Chorei porque você escuta as pessoas erradas, porque você não sabe diferenciar conselhos e cordas de marionete. Chorei porque estou de mãos atadas. Chorei pela saudade. Chorei por amor. Chorei de dor. Chorei pelo luto após o luto. Chorei porque continuo sendo Eu-atalho .





segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Sobre nós




Hoje me deu uma vontade de sussurrar torturas nos teus ouvidos e esperar alguma reação tua. Espero, passo os dias esperando, que você nunca mais saia inerte de mim. Saia marcado por uma sensação boa que pode ser prazer ou afeto contente, numa coisa saudosa que não precisa buscar satisfação no passado (porque eu tô bem aqui).
“Te mandarei flores amanhã”. Deixe que te envio flores noutro dia pra compensar a solidão da hora do trabalho, já que você fica sozinha, nessa relação homem-máquina estranha por 40h/semana. Me manda flores também e me deseja, vai. Me deseja de todas as maneiras, mas me deseja com afeto. Me deseja um bom dia e me tira os dentes da boca, me tira dessa sombra que me esconde quando bate a tristeza e a falta de você, moça.


Prometo diante de uma entidade desconhecida que isso é amor. É amor em cada curva, amor naquele seu sinal, amor espelhado nos olhos que reprovam e eu nem ligo. Nem ligo porque sou teu porto e teu porre. Tua estrutura elástica que se adapta, feito camaleão, no contraste da tua pele.  Tão amor-liquidificador que eu não saio inerte de você, nada sai inerte ou estável dessa minha vontade imensa de te fazer feliz. E tu lembra que já me mandou embora tantas vezes que a tua porta já tem as marcas de batida da minha mão. “Vai embora porque você me tem fácil demais”. Tua cama é moldada a mim, mas você tinha um medo descarado de se sentar à mesa com outro homem. Passou, como tudo passa um dia. Passou por mim e eu disse ''olá''.
E nessa vontade que hoje me bateu, arrebatadora, de te dizer essas coisas todas, eu me lembrei de como eu também sou tão seu. Tão teu nos detalhes cotidianos que se a gente não parar a vida pra olhar devagar, vai parecer que a gente já tava grudado num berçário da vida, Já brincava e ouvia Forfun e Raúl juntos desde pequenos . “Será que a gente pode ir pra outro lugar?”. A gente foi e o tempo existe, e também as coisas mudam, você me diz. As coisas mudam e será mesmo que a gente mudou? Será que teve numerologia, tarot, astrologia, runas ou todas essas coisas de sorte que formataram a gente nesse futuro-presente que já passou? Será que teu amor e o meu eram predestinados, mesmo que a gente nunca acreditasse nisso? Balanço a cabeça e afirmo, conduzindo-te num passo de dança enquanto mostro a minha vida. Te faço sala, você é meu quarto. Meu diário-trancado-de-confissões que exprime e pede silenciosamente que seja cuidado, enquanto vulnerável.
Não faz assim, porque cócegas me tiram do sério e eu sou mais forte que você. Dos deuses da mitologia, sou uma mistura de Áries com Dionísio, e você é um Apolo-com-um-quê-de-Narciso, sem ter intenção nenhuma de ser Deus. Mundano, você acredita nas coisas todas daqui, da gente e o nosso amor se encontra em Vênus, prazer. Talvez a gente combine, talvez seja tudo um discurso inflamado pra te dizer que o importante é que as coisas mudam, sim, e a gente pode mudar um dia. E te peço pra não me mandar mais embora por medo, por isso te mando flores e um cartão confessando que eu continuo, sempre, sendo teu.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Você vai lembrar de mim.





Parece que foi há tempos atrás. Em uma época que remetia às aventuras dos mais destemidos heróis da Idade Média e aos romances noir em preto e branco. Aliás, acho que aqueles filmes tinham um quê de mais reais do que os coloridos de hoje em dia. O preto e branco transmitia um sentimento mais verdadeiro. Trágico, profundo, complexo. Tudo preto no branco. Mas não foi há tanto tempo assim. As fotos não me deixam mentir. O teu cheiro na minha camisa não me deixa esquecer. Até as meninas bonitas com milhares de sorrisos movidas a batidas melódicas nas festas me lembram você.
Aquele relógio de pulso que você me deu no meu aniversário não parou Aquela. Curioso. Achei que os ponteiros parariam no exato momento em que você dissesse adeus. Nem as estações congelaram, nem a gravidade cedeu, nem a programação ridícula da Tv aberta fez concessão ao meu sentimento. Estático, sem reação, sem saber o que fazer da vida estou eu. Porque na verdade ninguém se importa. Ninguém sabe mais que eu o que eu estou sentindo. Sabe, você foi a mais bela esperança que eu já tive em meus braços. Você foi, para mim, a resposta de que vale a pena amar alguém tão diferente de você. Você foi. E não volta mais.
Eu nem me dei o trabalho de empacotar as coisas, de retirar tudo o que é seu da minha vida. Eu tentei reagir da melhor maneira possível. Funcionou um pouco, sabia? Mas é que toda vez que eu fico em silêncio, meu coração dispara. Toda vez que eu fecho os olhos, a única imagem que me aparece é você. Eu vou sentir a sua falta. Isso eu nem preciso frisar. As minhas palavras caem no papel com o peso de um milhão de silêncios. Crueldade é que a gente está conectado de todas as formas possíveis, com exceção da única forma que me faria feliz agora. Sabe, eu ouvi dizer por aí que você desatou o nosso nó. Ouvi dizer por aí que eu me perdi e não consegui voltar. Ouvi dizer por aí que a gente se enganou. De verdade? Transformo tudo em pequenos grãos de areia que são tão irrelevantes perto da grandiosidade do que a gente foi.

                                       


Esse quarto tá uma bagunça. O pior é que eu tenho plena convicção de que eu corro um grave risco se tentar arrumá-lo. É uma daquelas faxinas que colocam o que restou do amor em caixas, retira as fotografias dos porta-retratos, apaga os bilhetes gravados na parede e todo tipo de coisa. O risco é guardar isso tudo pra nunca mais encontrar. Síndrome de Faxineiro, sabe? Eu me encontro nessa bagunça que anda o meu coração. E me pergunto por onde você anda, com quem você tem estado, se é verdade o que você diz por aí. Me pergunto se você também tem tentado esconder tudo por trás da máscara de inconseqüência ou se realmente está tudo bem. Confesso que saber que está tudo bem me parece ultrajante: é como se você nunca tivesse sofrido essa dor de amor. Eu espero que você esteja lembrando. Que você se lembre de mim. Pelo menos que o meu nome não tenha sido apagado da tua agenda com tanta facilidade. Pode até esquecer o nome, mas guarda o endereço, por favor.
Bom, vou continuar então a fazer o que eu estava fazendo. Vou continuar a fazer nada por nada e continuar me sentindo nessa mistura de nada com coisa alguma. Tenho fé nas coisas do mundo, tenho fé no clichê do tempo. E falando em clichês, nas últimas horas eu contrariei um dos grandes clichês da humanidade: homem chora sim.