terça-feira, 24 de novembro de 2015

"Eu vou encontrar outro alguém".


Talvez ela não tenha seu sorriso. Aquele torto e cínico, escondido do lado esquerdo do seu rosto, que só você sabia dar. Mas espero que ela tenha vinte por cento do seu humor – foi muito por causa dele, e de mil outras coisas, que eu me apaixonei. Espero que ela ria até perder o ar, do jeito que você sempre fazia, mas que não perca o riso com o passar do tempo, nem canse de mim, de nós dois, do amor. Espero que ela não  seja outra que diga que vai ficar e, no fim, não ficou.
Se eu pudesse escolher alguma coisa, iria querer que ela tivesse seu olhar carinhoso ao acordar. E aquele ar despretensioso que você tinha ao dormir. Uma vez, te olhando, eu jurei que poderia passar o resto da vida só te vendo ali, sem medo, sonhando. Mas a gente sempre acorda dessas ilusões malucas de que amores duram pra sempre, não acorda? Eu, pelo menos, acordei.
Seu gosto musical insuportável ela não precisa ter. Talvez eu encontre alguém que, finalmente, curta passar a tarde de domingo ouvindo Caetano ao meu lado. Alguém que tope fazer aquela trilha do Costão de Itacoatiara que eu sempre quis fazer e você nunca quis me acompanhar. Já pensou eu encontro alguém que não me ache maluco por querer rodar o mundo em um cruzeiro quando eu tiver setenta anos?
Espero que ela tenha três doses a mais de amor se um dia resolver partir. E aí não parta como você – meu coração inteiro. Quem sabe, olha só, eu não dê a sorte de encontrar alguém que não vá me fazer questionar tudo, cada passo, cada vírgula da história, pra saber se valeu a pena. Vai ver eu ache alguém que me dê menos dúvidas e me encha de certezas.
De verdade? Espero que ela me faça parar de pensar que era você. E que só não era eu. E tudo bem porque a gente tem que aceitar quando não é a gente. Não é? Às vezes, a gente tem que aceitar que a gente tava pronto e o outro não. Mas espero que ela me faça pensar, depois de um tempo, que era ela. Que é ela. E espero, do fundo do coração, que ela seja.
Porque se tem uma coisa em que eu continuo acreditando, é isso: uma hora, vai ser.
Eu vou encontrar outra “você”.

Por Karine Rosa em:  http://www.karinerosa.com/

domingo, 14 de junho de 2015

Mistério


Sou a saudade de um jardim que nunca existiu, de filhos que nem nome têm, de um amor que nunca vivi. Vivo o desafeto de sonhar, sozinho, um amor de cinema. Almejo o inexistente, me digo ser euforia, mas, quando me pergunto se um dia ele virá, transbordo na maldade do tempo.
Estranho dizer, mas a minha melhor parte é aquilo que não sei. Então, antes de vir, não me pergunte quem sou, ou como amo. Sou um mistério para mim. Me desvende, me faça não ter onde me esconder, descubra o amor que há aqui dentro, só não me deixe saber disso. Minta para mim, não me deixe enxergar que estou amando, assim, amo como ninguém.
Fingindo que não sei amar, te digo, não me faça prometer amores certos e responsáveis, me ganhe no silêncio do vivido, se disponha a ver a cidade acender ao meu lado, o vinho se pôr em bocas diferentes e, se possível, me deixar ser eterno por um instante. Não necessito de mais que um instante, pois, preciso te dizer, a eternidade me assusta. O amor me assusta. A assertividade do que sinto me assusta. Me entregar para um coração que não seja o meu, então, se faz apavorante.
O amor, que aqui habita, se faz como um livro, onde poucos foram os que leram algum trecho, e inexistentes foram os que terminaram de ler. Quando sozinho, no silêncio da minha presença, deixo o amor em livro sair. O apanho da estante mais empoeirada da minha livraria e lhe dou a atenção merecida. Pelo menos nas noites em que estamos a sós. O leio em voz alta, para nunca esquecer do que quero sentir, rabisco suas páginas, divido todo o meu eu e, ciente de realmente estar sozinho, choro por somente eu tê-lo lido até o fim. Depois, o coloco no seu lugar, pois, se eu permitir, ele se deixa ser lido por todos. E, infelizmente, eu ainda não sei dividi-lo…






Por Frederico Elboni em: http://www.entendaoshomens.com.br/se-deixar-amar/

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Ela já foi



Eu a tinha aqui, deitada no sofá enquanto eu fazia o café, reclamando da programação de domingo de manhã na TV. “Por que parece sempre que não passa nada de bom?”. Porque só a gente acordava naquela hora pra ler jornal e andar com o cachorro, meu bem, o resto do mundo tava chegando em casa. E agora eu chego também.
Eu dizia pra ela umas coisas bobas de que precisava ir embora desse mundo e ela me perguntava por que, se o mundo era outro e a gente era abrigo. Eu explicava com um pouco de raiva, um pouco de falta de paciência, que ela não era meu bunker, porque eu sentia que não era, sentia angústia e mesmo que ela apagasse a luz do corredor as coisas não mudariam. Ela deitava quieta do meu lado, e eu só queria sumir um pouco e ficar sozinho. Agora eu tenho todo o espaço do mundo dentro de mim. E a falta consome.
Eu tentava esconder o tédio que batia quando ela queria assistir “Chicago” de novo e cantarolava a cada dois segundos, sempre caía no sono e nunca via o filme inteiro. Trocava a vista dela pelo celular nos jantares, a companhia dela por qualquer pessoa durante os dias de semana em que tinha tempo livre. Até no dia em que eu troquei o lado dela da cama e quem deitou não me perguntou meu lado preferido. Vesti a roupa e fui embora pra casa. E agora não durmo mais assistindo “Chicago” e sei todas as músicas de cor.
Eu a tinha.
Agora eu sou o cara-que-não-tem-mais. O cara que podia ter ido pra casa e rido dela deitando no meu lado da cama e podia também ter esquecido de fechar a porta pra deixar o cachorro pular nela. Podia ser o cara que sai correndo no meio do banho pra ligar o interruptor porque tomou um susto com a água gelada e com ela se encolhendo toda no canto do box. Podia ser o cara que aproveitou a falta de luz pra ser pego de surpresa com um China In Box à luz de velas e podia ter sido o cara que fingiu que não viu as caixas de yakisoba na área de limpeza. Podia ser o cara que canta All That Jazz, mas preferiu ser o Mr. Cellophane que canta sozinho e olha pro lado procurando cumplicidade pra rir da cena engraçada, mas só encontra o cachorro, que também sente a falta dela. É impressionante como ele também sente que só eu não basto, que falta alguma coisa, que sem ela eu não tenho sido suficiente só pra mim.
Eu dizia. Mas dizia o que não importava, dizia um monte de bobagem e nem ria, dizia que hoje não ia dar pra ir com ela no cinema porque tava com preguiça. E passei a não acordar mais cedo nos domingos e nunca mais fiz café pra ela. Passei a achar mais ainda que ela não fosse meu bunker e uma hora dessas ela acreditou, acreditou que a gente não era mais abrigo.
Agora eu sou o cara que podia ter tido tudo, mas não tem. E ela é a garota que eu sonhei desde que era pequenininho e também é a garota que não acredita em mais nada do que eu digo, nem quando eu deixo um bilhete dizendo que decorei as falas do seu filme preferido porque é tudo o que eu tenho feito, eu tenho preenchido a falta dela com as partes dela que eu ainda posso ter.
E eu? Eu sou o cara que abriu a porta pra ela ir embora. E agora ela já foi.


terça-feira, 7 de abril de 2015

Sobre o amor e o medo

Uma vez você me disse que tava indo embora e que tinha que fugir de mim. Tava tudo bem, eu até entendia a despedida. Mas a fuga? Nunca entendo. Você falava que eu era um desses homens-bomba prestes a explodir alguma coisa dentro de você, prestes a te prender numa emboscada. Se o Molejo tivesse pensando na gente, teria sido amor e também cilada.
Falou debaixo dos Arcos e me empurrou, me mandou pra longe enquanto todo mundo via o circo que era a gente. Só faltaram os aplausos, mas juro que a bateria de escola de samba que era o meu peito deu conta dessa falta. Quantas cores você enxerga comigo? Eu vejo muitas, eu vejo várias, eu vejo você refletindo a chuva e brilhando num prisma multicolorido que muda as coisas. Sinto isso quando deito contigo numa cama apertada no meio do litoral, sinto isso quando você me liga embriagada e me manda sumir, me manda ir embora logo antes que eu destrua tudo, antes que a gente se exploda porque você não pode, você não quer isso agora, tá tudo muito certo pra outra bomba. Então você foge.
Foge e não tem sentido nenhum. Certo? Porque você tá fugindo do que te faz bem. Tá fugindo porque “agora não é hora”, “talvez você esteja enganado”, “e se você for embora, como é que eu fico?”, “você não quer o mesmo que eu” e blá, blá, blá. Você é todo um Hades de vozes semiloucas gritando pra não me querer porque, bem, você já quer. E eu te quero tanto. Quero pra caramba. Quero a ponto de implodir sozinho só pra não deixar nenhum caco meu cortar você.
Sou bomba, sim, confesso. Mas é porque eu quero te fazer botar pra fora tudo aquilo que você cala. Exterminar essa coisa quieta e calma que você guarda, essa coisa comedida de viver a vida (que na verdade é medo). Você fala como se tivesse que se desculpar por tudo e pelo mundo, mas não tem, nunca teve. Não tem que se explicar pra ninguém, não tem que pagar a conta do bar pra deixar ninguém feliz. Você precisa seguir essa porcaria desse teu coração, intuição, sentimento, dor de dente ou como você quiser chamar isso que sente. Segue, você vai ver que aponta pra mim porque o teu norte sou eu. E é por isso que eu venho, que eu chego num cronômetro decisivo, sempre mais perto, torcendo pra você não cortar o fio vermelho. Eu só explodo se você deixar. Explodo e mudo o seu mundo inteiro. Você vai ver.
Sou bomba, meu bem, mas não pra te machucar. Eu faço alguma coisa que reverbera aí dentro que te faz perceber que essa praia é mais bonita de noite, que as luzes da Orla deixam a cidade mais romântica e pronta pra gente andar meio bêbados por aí. Te disse noutra noite que eu sou d’um tipo equivocado, que se desculpa o tempo todo, que veio mesmo é pra fazer estrago. Não foi a maconha ou o álcool, não foi influência do amigo de azul que não parava de falar do bosta do Foucalt, mas foi você. Foi você me afastando e correndo como se batesse a meia noite e o pedido se desfizesse. Mas não esquece o sapatinho de cristal e fica. Se esquece inteira e se lembra de mim amanhã mesmo com dor de cabeça e aspirina.
Já pode parar de fugir de mim, porque isso tudo é medo.
Eu posso até me afastar, ir embora, implodir em outro lugar. Respeito se você não me quiser. Mas.
Nunca tem fuga quando a coisa da qual a gente foge mora dentro da gente.
Tic-tac-tic-tac-tic-tac.


terça-feira, 3 de março de 2015

Dessa vez eu não quero ser o héroi









Sempre fui do tipo que gosta de cuidar de alguém quando entra numa relação. Por gostar de ter certeza do terreno onde piso, eu sempre quis representar a pessoa que sabe o que tá fazendo ali. Queria ser a parte concha da conchinha, queria oferecer o peito pra deitar, queria ser o cara que conduz a valsa. E isso sempre refletiu muito nos meus relacionamentos.
Veja bem, não era nenhuma neurose controladora. Eu só gostava de me sentir necessário, de me sentir o porto seguro de quem tava comigo. Até que meu primeiro namoro longo acabou. Até que a tentativa do segundo foi um fiasco. Até que o último caso mudou muita coisa na forma como me via e foi um aprendizado enorme no início, meio e fim.
Depois do último fim, eu mergulhei num universo que era a minha cara: a loucura workaholic dos projetos e da vida adulta cheia de responsabilidades. Tive alguns bons encontros, mas nada além de encontros, nenhuma troca mais profunda. Eu cortei a coisa pela raíz nesses últimos meses sempre que me via na desagradável situação de nunca ter tempo pra cuidar de quem poderia vir pela frente. Num ato conformado de me convencer disso, eu abandonava a causa e me despedia. Melhor assim, não vou ter que como cuidar de você, eu disse (mais de uma vez).
Até ontem.
Até que eu cheguei em casa depois de virar duas noites trabalhando, com uma gripe insuportável, com as dores de cabeça de tudo o que eu tinha que fazer e entregar. Pensei no estresse e na falta de companhia, mas tudo bem, me falta tempo e eu vou ter que conviver com esse dilema: ao mesmo tempo em que quero cuidar de alguém, eu não tenho como fazer isso. Eu não tenho como me doar e me dedicar a alguém agora, eu não tenho como abrir mão dos meus horários encaixados para passar no cinema no meio da semana pra te ver, eu não consigo dar conta disso porque eu tô soterrado.
Uma lâmpada queimou no quarto. Tive um clique aqui dentro.
O problema real não é que eu não consiga me doar pra alguém porque eu não vou conseguir cuidar de quem quer que seja. O problema é que eu nego o tempo todo que eu também preciso de cuidado, eu delego sempre essa função a mim, mas só porque eu não baixo a guarda. Eu quero ser o herói de todo e qualquer relacionamento, mas poxa, isso cansa. Cansa porque ninguém é o Superman – e mesmo que seja, existe Kriptonita aos montes por aí. Cansa porque falta um abraço, falta um ombro pra deitar a cabeça e dormir no meio do filme, falta alguém que ligue no fim do dia e pergunte se tá tudo bem. E foi ontem, só ontem, que eu percebi pela primeira vez que eu também quero ser cuidado.
A gente tem que parar de negar e começar a admitir que quer fazer parte da vida de alguém, sim, e que não tem problema nenhum nisso. Não tem problema em querer ser a parte de dentro da conchinha, não tem problema em confessar que precisa de ajuda. Isso não faz da gente mais fraco ou mais forte, isso só mostra que todo mundo é vulnerável.
E foi no escuro forçado do meu quarto que eu percebi que dessa vez eu não quero ser seu herói. Eu quero, eu preciso de alguém que me salve. Alguém que me salve hoje e na próxima é a minha vez, a gente vai trocando. Uma vez é meu peito, na outra é seu ombro. E eu prometo que paro de mentir dizendo que me falta tempo, que me falta vontade, que me falta um monte de coisa porque só me falta mesmo alguém que me desarme. Alguém que me abrace quando descobrir que eu morro de medo do escuro.

Sobre a vida



Sem orgulho, sorriso ou brilho nos olhos. Sem vigor ou vontade de assumir. Sem mais delongas, protelamentos, procrastinações ou renegações: sou pessimista. Ainda que os sonhos me alcancem, me sinto como um maratonista fujão, que ao invés de chegar à linha, anda em círculos e vive de sonhos. Fúteis expectativas.

Talvez metade de mim chamasse esse meu jeito de autossabotagem. Quando os sonhos cometem aborto, com medo de se esvaírem. Algo como pré-conceito. Uma forma de podar as esperanças, arrancar as sementes antes que se fixem como raízes. Antes dos caules. Antes que a árvore seja alta, grande e corpulenta demais para ser arrancada sem a ajuda de um motosserra de verdades e nãos ouvidos na cara.

Acho que o destino de quem já deu topadas demais, recebeu pés na bunda, ou, sei lá, foi feito de trouxa, fantoche e boneca de pano, é essa incredulidade. Esse, digamos de um jeito eufêmico, ceticismo. 

Todos os dias, qualquer um que você seja capaz de imaginar, entre primeiro de janeiro e os infindáveis outros sábados e domingos, sonho. Durmo para descansar disso. Durmo para, digamos assim, dar um tempo nessa de imaginar, querer, desejar, almejar, pensar, sempre, em, querer, mais, em, querer, por favor, ir, além.

Quando a noite me vence, e o sono é mais pesado que os anseios e medos, todos misturados em insônia, é aí que eu não sonho. Não que eu não veja o mundo colorido de olhos fechados, mas, simplesmente e objetivamente, não me lembro dos meus sonhos. E, justamente quando todos sonham, eu só durmo. Sou uma espécie de ser humano às avessas. Não preciso do sono para sonhar. O faço com destreza, de olhos bem abertos. 

Na verdade, acho feio culpar os outros, sempre eles, por tudo que passamos. Por tudo que nos fizeram passar. Cada um recebe talvez, segundo um tal dito popular, o que merece. Quem sabe, em um universo paralelo, eu tenha plantado, e só agora venho colhendo esses frutos. Ora doces. Ora azedos. Ora estragados. Ora, só, hora. Tempo. 

Ainda que os sonhos me alcancem, me sinto como um maratonista. Alguém que vive se preparando para correr com todo o gás, em busca de um pódio. Em busca de um primeiro lugar. Em busca de deixar de lado uma vida de pessimismos, incredulidades e segundos, terceiros, décimos, quartos lugares. 

Só, rio.

Ainda vou chegar lá. Eu sei. A gente sabe. É que às vezes o mundo pesa tanto. Tudo parece tão escuro, difícil e inalcançável. As pernas, os braços parecem curtos. Curtas. Sonhos. Filmes que ficam passando na mente. No silêncio dos meus inquietos pensamentos.

Deixa pra lá. Hoje, ou só por hoje, vou fazer de conta que sim, que está tudo bem, tudo certo, tudo, ok. Fúteis expectativas. Coisas que enchem a gente de verde. De esperança. De querer, querer. Coisas que nos obrigam ou fazem acordar, todos os santos dias, para enfrentar mais uma (segunda-terça-quarta-quinta-sexta)-feira e batalhar por essa menina dos olhos chamada comumente de Felicidade.













Adaptação do texto "Beatitudinem, do latim", escrito por Matheus Rocha em: http://www.neologismo.com.br/2015/03/beatitudinem-do-latim.html

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Ninguém pediu amor


  Amor não correspondido é como uma batida de carro: dois corpos em colisão e o que vai determinar a intensidade é a velocidade e a força com que eles se chocam. Um deles vai bater mais forte e o outro vai sair mais ferido. Na nossa breve visão da situação, aposto que você pensaria em culpar quem rejeita e colocar o rejeitado – ainda mais se for você – num pedestal. Mas não, não deveria ser assim. 
  Eu demorei pra perceber isso. Vou contradizer muitos textos meus, mas a verdade é essa: Você deu e ele não quis. Engula o choro e pare de amaldiçoar o coitado: ele não pediu seu amor. Você embrulhou numa caixa de presentes e mandou junto com flores e bombons à moda antiga. Ela disse que não poderia aceitar porque não sente o mesmo. Engula a raiva e pare de maldizer a guria: ela não pediu o seu amor.
  Não sei se você percebe o lado deles, mas amar alguém que ama a gente pode ser um fardo ou uma dádiva. É uma dádiva quando nasce de dentro, quando vem uma coisa bonita e arrebata a gente – porque amor correspondido é arrebatador, transformador, expõe um lado que a gente não conhecia. E pode ser um fardo quando ele é carregado sozinho e entregue pra gente como se fosse obrigação nossa aceitar. Não, não é.
  Amor não correspondido é uma bosta, eu sei. Eu sempre me sentia um fracasso quando tentava, persistia, usava de todas as artimanhas e de todo o charme (que eu achava que tinha) pra tentar conquistar alguém. Não dava certo, caía fora de cabeça baixa, coração pesado e boca cheia. Reunia os amigos e contava a minha versão – é sempre a nossa versão dos fatos, nunca a verdade -, e dá-lhe encontrar motivos pra culpar o outro. Muitos sinais emitidos, muitas gentilezas trocadas, muitos convites aceitos e meu amor que é bom nada.
  Caro leitor, amor não é questão de mérito, nunca foi. Não importa quanto esforço você faça, não importa quão legal você seja: amor não é recompensa e nem prêmio de consolação. Você não vai encontrar amor como prêmio da Mega da Virada, nem na Tele Sena. Não vai pedir delivery num domingo à noite quando bater carência nem vai pedir num menu de algum restaurante descolado do Mirante Gourmet.
  Então pegue a caixa na qual você guarda esse amor todo e tenha plena consciência de que pode oferecê-la pra quem quiser. A recusa não é grosseira e é uma possibilidade recorrente. Não é falta de delicadeza, muito menos atestado de babaquice. É só alguém dizendo que não rolou, que aquela chavezinha que roda aqui dentro quando se ama, quando se quer por perto, não rodou. Não rodou por você, obrigado e volte sempre.
  Antes de maldizer o mundo, os fundos e a falta de amor, pense duas vezes. Por você e por quem recusou a oferta. Um dia você é recusado, no outro recusa. O lado bom disso é que a gente não precisa fazer recall do produto (e nem encarar uma fila de espera de 40 minutos a 1 hora pra entrega, como se fosse pizza). Se você encarar dessa forma, as chances de se sentir machucado são bem menores. Até porque o mundo não se divide em vítimas e agressores. Num acidente de carro, por exemplo, o motorista não tem culpa se você se jogar contra o carro dele numa avenida movimentada. O estrago é por conta e risco seu. Todo seu.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

"Ele quer alguém"



            Nem ele acredita mais, mas é claro que ele quer.
Pergunte a qualquer um de nós o que queríamos ser quando crianças, ninguém vai dizer: “Eu sonhava em ser um cara bonzinho”. Homens, quando criança, querem ser corajosos, valentes, usar sua força por alguma causa, desejam viver uma aventura. Não é a toa que as brincadeiras giram em torno de competições e lutinhas - “Quem é o mais forte? Quem é o mais corajoso dentre os meninos da rua?”
Mas parece que essas coisas não importam mais hoje em dia. Diariamente homens são bombardeados e domesticados com textos do tipo: “O que o homem perfeito precisa ter”, “10 qualidades de um homem pra casar”, “Fique com um homem que...”. Vê? Cadê sua força? Sua coragem? E esse é o problema: Ninguém mostra para ele que ser apenas o que esses textos falam, faria dele o cara mais sem graça do planeta. E ele não é sem graça. Um relacionamento que ele entraria, mas acha que não existe mais, não precisa só de bondade, mas de coragem, de força e, com certeza, de aventura.
Por isso não surpreende que ele troca a aventura a dois pela aventura sozinho. É mais fácil. Ele não quer perceber que se abriu para alguém, e quis alguém pra valer, mas não tinha o necessário. Que só cumpria 7 das 10 qualidades necessárias. Que não era o cara perfeito para ela. Mas será que não era?
Então ele continua, como diria a música, de copo sempre cheio e coração vazio. Afinal é mais fácil agradar o dono do bar. Ele quer alguém, claro que ele quer, mas acima de tudo, ele quer ser quem ele é - e não só bonzinho.





Por Celio Heitor Sordi em: https://www.facebook.com/acopy.me?fref=ts


"O que aconteceu com os relacionamentos leves?"


O status do whatsapp dela diz: “Ou você soma, ou você some” e na capa do grupo das amigas a foto do abdômen mais trincado que pode existir. Logo pela manhã ela leu as “10 coisas que um homem para casar precisa ter”, já ele, enquanto perambula pelo “adote um cara”, resolveu mandar uma piada sobre ex-namoradas no grupo dos amigos. Ela é interessante, ele também é, não é a toa que combinaram um jantar. Mas quando seencontram, nada flui. Claramente algo está errado.
Eles não perceberam ainda, mas a era dos relacionamentos leves está acabando.
É complexo. Dê uma flor hoje em dia e você está sendo afobado, queira pagar pelo jantar e temos um machista retrógrado. Todos desconfiam de tudo. Estamos nesse campo de batalha chamado “você não presta”, armados até os dentes de “esse filme eu já vi”. É como se todos tivessem criado o dom de identificar facilmente os canalhas e as fúteis, mas não se aproximaram nenhum passo sequer da maturidade emocional. Ninguém de fato está preocupado em ser melhor, ou em criar consciência. Todos só têm argumentos.
Minha geração é a menos paciente, flexível e amorosa de todas. Não confia, ou se apaixona cegamente mais, não antes de vasculhar os amigos em comum. A geração especialista em achar pelo em ovo anseia pelas agulhas do palheiro, mas quando as encontra, não tem nada para costurar.
Eu me pergunto se as pessoas deveriam ser tão entendidas assim sobre o que julgam não querer. Talvez a menina das “10 coisas que o homem pra casar precisa ter” jamais as encontre em alguém, mas, caso se permitisse, encontraria outras 100 qualidades ou mais. Na mutação dos gostos, sentimentos e opiniões, não correr atrás do que parece perfeito, mas do que faz bem, é quase um ato de heroísmo. Mas para isso, no “soma ou some” da vida, a soma ainda precisa ser uma operação entre dois.







Por Celio Heitor Sordi em: https://www.facebook.com/acopy.me?fref=ts

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Se eu pudesse voltar





Se eu pudesse voltar nossa história eu deixaria em câmera lenta a hora em que você se aproximou pra me dar o primeiro beijo ali debaixo da cascata daquela piscina. Se eu pudesse voltar, eu te faria sorrir mais. Se eu pudesse voltar, eu ia te ver todo dia. Se eu pudesse voltar, eu te levaria mais vezes no cinema, eu passaria mais tardes de domingo ao seu lado, eu te faria mais massagens. Se eu pudesse voltar, eu não deixaria brechas pra você não me querer mais, eu faria quase tudo diferente. Se eu pudesse voltar, eu não teria chorado na sua frente depois do beijo de despedida, pois ele nem existiria. Se eu pudesse voltar eu não morreria de saudades afogado nas lembranças das nossas noites de amor. Eu não teria feito as besteiras que fiz tentando te reconquistar, nem teria te odiado com o boato que espalharam. Se eu pudesse voltar, esse texto seria uma página em branco.
Espero que você tenha alcançado suas tão sonhadas independência e estabilidade financeira. Espero que tenha colocado uma rede na sua varanda. Espero que tenha, finalmente, comprado um sofá. Espero que tenha consigo colocar uma TV na parede do quarto. Espero que não tenha endireitado aquele seu dente torto super sexy. Espero que tenha ajustado sua tatuagem, ou até feito outras. Espero que não tenha mudado aquele seu creme anti acne que deixa o cheiro no apartamento todo. Espero mesmo que esteja feliz. Sabe, tenho tanta coisa nova pra contar. Muitas músicas novas pra te apresentar, muitos filmes novos que você iria gostar, novas piadas das quais só você iria rir, novos lugares que eu gostaria que você visitasse comigo. E, apesar de não querer, espero que você tenha encontrado alguém que consiga fazer tudo o que eu não fiz, alguém que não acabe escrevendo um texto sobre querer poder voltar no tempo.







segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Sobre despedidas






Olha, alguém me disse que você vai embora. Que vai mudar de cidade, de país, de planeta e vem se despedir. Senti um gelo na barriga. Uma vontade de sair correndo, sabe? Um ímpeto de desaparecer e voltar depois, mais tarde, quando você já tiver partido. Não por nada. É que eu não gosto de despedidas.
Não gosto, não. Não gosto mesmo desse negócio. Resisto a tudo. Jiló, muriçoca, bife duro, ar-condicionado quebrado, vizinho barulhento, internet lenta. Tudo! Menos despedida. Quem é que gosta? É, tem sempre um e outro que não se importam. Eu, não. Eu fujo, corro, me escondo. Assumo minha total e absoluta covardia. Eu sou um covarde de despedidas.
Cá entre nós, eu fico pensando que o mundo tem no mínimo dois tipos de pessoas de quem somos levados a nos despedir: aquelas cuja falta nos doerá e as outras, de quem queremos mesmo distância e não mais vê-las será um alívio. Em qualquer desses casos, o instante de se despedir é sempre difícil. De um lado, ver partir aqueles que amamos é uma coisa chata mesmo, aborrecida de nascença. Do outro, quanto àqueles que não queremos por perto, esses no fundo não merecem sequer um segundo de mesuras finais. Você, claro, é dessa gente difícil de ver partir.
Por isso eu prefiro não me despedir. Isso também acontece quando sou eu aquele que segue seu caminho pela vida. Não me despeço. Porque partir sem dizer adeus é a expressão mais honesta da minha vontade de, quem sabe, voltar! Eu troco fácil, fácil, o “adeus” pelo “até já”. Evitar a despedida é driblar o fim, guardar em nós o gosto bom do encontro e sonhar com a próxima vez.
Quer saber? Eu tenho a impressão de que não suporto esse negócio de adeus por um motivo muito simples: quando nos despedimos, nós morremos um pouco. Vamos embora com quem parte, guardamos conosco quem vai. Essas coisas de que tanto já se falou por aí. Uma despedida é um pedaço de morte, ela mesma, rindo da nossa cara, lembrando descaradamente que, olha, uma hora isso tudo vai acabar, hein! Tudo acaba como acabou a companhia do bom amigo que partiu, como o amor que esfriou, como a festa que findou na saída do último convidado. Então aproveita pra viver que a vida é agora!
Você sabe. Vira e mexe eu penso nas pessoas boas com quem caminhei por aí. De nenhuma delas eu me despedi. Ora porque não tive a chance mesmo, ora porque eu não quis. Umas eu encontrei de novo, de verdade, com abraço e tudo. Outras eu revejo sempre, reencontro-as, mas só quando penso nelas à noite, bêbado de sono e saudade. Essa noite eu vou pensar em você.
Verdade. Vou lembrar sua companhia como lembro das minhas avós no tempo em que ia com elas às procissões religiosas da infância. A gente achava bonito andar todo mundo assim, no meio da rua, no meio da noite. Os carros, as motos e ônibus, caminhões e peruas dormindo nas garagens e terrenos e cantos de calçada, os motores desligados, sonhando estradas tranquilas. O mundo se tornava apenas nós, transeuntes, pedestres tomados por uma fé tranquila, caminhando pé depois do outro na procissão. E era como se todos ali, desconhecidos uns dos outros, os rostos iluminados de velas calmas, nos tornássemos mais íntimos e melhores, mais irmãos, velhos amigos certos de que a vida era mesmo aquilo, um seguir em frente juntos.


Aí vinha o fim do cortejo, o Santo deixava o andor e voltava a seu lugar no altar da Igreja e cada família retornava à sua casa. Nós então seguíamos sem despedidas, e na manhã seguinte seríamos mais do que os mesmos estranhos de sempre.
Eu não me despedi de você e espero que você compreenda. A gente se vê na estrada. É assim a vida. Cheia de idas e vindas. Mal dizemos um “adeus” e o “olá” seguinte se precipita. A vida nos sacode pra cá e pra lá como passageiros de um ônibus sem bancos, descendo uma ladeira esburacada e cheia de curvas, conduzido por um motorista rebelde. De quando em vez, um de nós salta e toma outro rumo.
Dessa vez foi você. Eu sigo aqui, torcendo, feliz por alguém que fez de mim um ser humano diferente, nem melhor e nem pior. Mesmo sem me despedir. Você sabe. Despedir-se é morrer um pouco. E contra isso o melhor remédio é viver. Seguir em frente.
Lá vem você abraçar os que ficam. Eu vou sair de fininho. Vou ali comer um jiló, um bife duro, ser picado por uma muriçoca, desligar o ar-condicionado, dar um alô ao vizinho barulhento. E já volto, depois que você tiver partido. Deixe um abraço para mim e vamos à vida. É nela que a gente se encontra. A gente se encontra na vida.

Por André J. Gomes em: http://www.revistabula.com/3398-despedir-se-e-morrer-um-pouco-vamos-viver/


domingo, 21 de dezembro de 2014

Sobre o poder das palavras


 Sabe, algo que eu prezo muito é a palavra. Sim, a palavra, o verbo, o adjetivo usado, a oração formada, a afirmativa feita. Palavras têm um poder imenso. Elas podem expressar um sentimento, uma descoberta (à la Arquimedes e sua “Eureka!”), podem derrubar torres gêmeas, podem explodir bombas atômicas.
Mas, a meu ver, as palavras precisam ser acompanhadas por ações (e aqui uso toda a licença poética possível). De que adianta falar algo se não é possível praticar o que foi falado? O que quero dizer, senhores e senhoras, é que vejo por aí muitas pessoas que não medem suas palavras, nem tampouco medem as conseqüências de tais palavras nas vidas dos ouvintes/leitores/receptores. Daí a pessoa diz “eu não faria isso” e vai lá e faz. Diz “eu nunca seria assim” e depois recusa-se a olhar no espelho. Diz “vamos aproveitar nosso tempo juntos” e pula da barca na semana seguinte. Diz “nunca te deixarei” e deixa. Diz “sempre te amarei” e pouco tempo depois nem reconhece o outro quando se encontram na rua. Diz “serei fiel” e trai. Acabam sendo “palavras, apenas palavras ao vento”, como diria a poetisa. E o resultado disso, quem vê? Quem sente? Quem arca com as conseqüências das próprias palavras?
É importante, antes de falar algo, antes de prometer, antes de afirmar, antes de projetar algo futuro através de palavras, medir as conseqüências, fazer um cálculo juntando os fatores razão, sentimento e tempo, ou, simplesmente Pensar. Mais que isso, é extremamente importante saber que existe alguém que sofre com essas conseqüências, alguém que acreditou nas palavras que foram ditas, que levou a sério, que confiou no que foi dito. Palavras não têm valor quando as ações não condizem com a ideia que foi passada. Pessoas, por favor, sejam mais honestas. Sejam fiéis ao que falam, não sabem o quão honrado isso é.


segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Um dia fui ventania.


Eu vejo você e ele atravessando a rua juntos. Eu, de dentro do carro, com a cabeça escorada no banco de carona, peço que o motorista siga. Você, com ele, também segue.
Vejo as coisas que ele deve te dizer e me pergunto qual foi o momento em que eu disse algo de errado, ou se foi a maneira como eu me apresentei. Não foi num café, nem numa festa badalada , nem um esbarrão do lado esquerdo da escada rolante do shopping. Eu nem disse "prazer", nem nada, porque não sabia como seria. Se soubesse, teria dito que seria dor, mas só passei a achar isso quando te vi com ele.
Você e ele sorriem de um jeito que repuxa os lábios e faz a testa enrugar, acho que de um jeito que nunca foi comigo. Você também parece mais jovem, mentira, é a impressão que todo mundo tem quando o outro tá melhor. Mentira de novo, eu não penso nessas coisas, porque eu sinto tanto que bate uma angústia, você já sentiu como se algo te repuxasse o peito em vez do sorriso? Eu deveria estar feliz por você. Não, por que eu estaria? Enquanto você sorri e entrelaça as mãos com ele, eu lembro que não sou mais eu quem te segura. E o teu peito já não é mais porto seguro.
Eu vejo o jeito como ele te olha e nem é muito diferente do meu. Talvez ele tenha um ou dois tiques nervosos que o faz soltar piscadelas rápidas, como se fossem espasmos, mas eu não consigo achar o charme disso. Não consigo entender as coisas que ele tem e eu não tenho porque eu ainda me acho, aqui de baixo, melhor que ele. Ele não vai passar 12 horas numa fila pra comprar seu livro preferido e autografar com o chato do autor só pra te fazer surpresa numa quinta de manhã, nem vai deixar de ir trabalhar pra cuidar da tua febre numa semana em que o chefe tinha ameaçado mandá-lo embora. Ele não vai cozinhar pra você. Nem vai te dar tantas noites de amor e sexo como eu daria. Ele não vai fazer as mesmas coisas que eu, e nem eu vou fazer mais. Talvez seja essa a parte que eu mais odeio, a parte que realmente dói: quando cai a ficha de que ele não sou eu.
Você e ele comem juntos? Porque eu fico imaginando a sua rotina com ele enquanto eu abro mais uma cerveja na balada. Eu te juro, eu te vejo com ele em todo o canto pra onde vou, morro de medo de esbarrar com vocês por aí e ter que fingir que tá tudo certo, que tá tudo bem. Morro de medo de abrir meu Facebook um dia e encontrar alguma coisa que eu não queira saber, data de casamento ou noivado, sei lá. Eu não quero te ver (com ele).
Não vou entender, ninguém entende quando um amor que era nosso passa a ser de outra pessoa assim, do nada. Como se um dia você acordasse e me dissesse “querido, foi bom enquanto durou e durou enquanto tava sendo bom, mas acabou” com a voz do Projota ecoando um rap descolado pro mesmo papo velho de sempre. Será que você sofreu com a troca ou pensou demais antes de me deixar? Será que você cogitou esperar um pouco e tentar outra vez antes de encontrar nele alguma coisa que eu não tenho? Eu me pergunto, pergunto pros seus amigos e pros meus, eu jogo búzios e tarot, até voltei a acreditar em astrologia. Teu signo sou eu, meu bem.
Por enquanto só a previsão do tempo responde: depois da tempestade que você me causou, todos os outros são garoa. Ele é chuva nova, molhada, saudável, de beijo de novela. Hoje eu passo por você e espero que você lembre que um dia eu fui ventania.

domingo, 14 de dezembro de 2014

Sobre o "Quase"


Foi quase gol. O que não o impediu de chorar pelo time, rebaixado, desmoralizado e humilhado mais uma vez.
Debruçara-se à janela quase a tempo. Mas perdeu a mais intensa chuva de estrelas cadentes dos últimos vinte anos.
Tirara quase sete. E ainda assim, teve que trocar o videogame por boas horas de estudo para a prova de recuperação.
Chegou quase às dezesseis. O que impossibilitou que tomasse o ônibus das quinze e cinquenta e quatro.
Juntou quase um bilhão de reais. O que não foi suficiente para que fizesse parte da lista dos mais ricos do mundo pela Forbes.
Ganhara quase sete quilos. Mas ainda assim, não era gordo o suficiente para entrar na fila da cirurgia bariátrica pelo SUS.
Quase fora diagnosticado com dengue. O que não foi suficiente para que pegasse duas semaninhas de atestado médico.
Quase fora promovido. Porém, como continuara sendo estagiário, não teve condições de pagar a viagem dos sonhos para o pai em estado terminal.
Há algo mais nocivo do que um quase? Do que uma quase conquista? Do que uma quase certeza? Do que um quase amor? Viver na iminência é ter um pé na beira do abismo e não poder se jogar ao mar. É ver o trio elétrico e não poder correr atrás por causa da perna engessada. É esticar os braços para fora da janela e perceber que o trem é tão veloz que sequer os dedos se tocaram. Porque sempre que a gente quase, a gente não foi. Sempre que a gente quase, a gente não é. Sempre que a gente quase, a gente não será.
Pela primeira vez na vida, quase gozara. Mas morreu sem saber o que é ter um orgasmo.






Por Bruna Grotti em: http://www.entendaoshomens.com.br/a-tristeza-de-um-quase/

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Quando termina sempre há um "mais um pouquinho"




O nosso trato tinha sido o fim. Exatamente assim: com direito apenas a um ponto final. Assisti pelo canto dos olhos você catar todas as tuas vírgulas, que estavam ali há tanto tempo dando sentido a uma história. Engoli minhas exclamações. Eu havia perdido o controle do enredo, e agora ele te empurrava pela porta da frente para nunca mais voltar. Quando teus passos viraram a esquina, senti uma lágrima quente escorrendo pelo canto da boca. Tinha gosto de reticências.
O nosso trato tinha sido mesmo o fim? Então diz pra mim: o que o teu sorriso está fazendo dentro da minha gaveta, descansando entre uma meia e uma gravata? Ninguém me avisou que no fim havia tantas metades. E agora, o que faço com os teus pedaços espalhados pela bagunça que a vida ficou? Tua respiração pesada ainda sopra hálito de creme dental de hortelã em meu pescoço toda noite. O a cor dos teus olhos me encurrala em cada aresta da casa. Qualquer perfume que cruza por mim na rua tem o teu cheiro. Quanto tempo demora o fim pra acabar?
Se você souber a resposta, por favor, não recorre àquele franzir de testa que me faz sentir o quanto sou estúpido. É que, pra ser sincero, eu achei que aquela conversa de “não dá mais” era tudo o que bastava...ela devia ter apagado da minha memória o teu riso frouxo enquanto me olhava absorto... Devia ter me feito esquecer como o teu corpo tem sabor de estar em casa, e eu nunca mais saberia o som da sua voz ou o cheiro do seu travesseiro e a travessura exata que conta a história de cada cicatriz que você herdou da infância. No fim, não era pra eu conseguir lembrar a posição da tua escova de dente na prateleira, ou dos teus neologismos em meu vocabulário.
O nosso trato tinha sido mesmo o fim. Mas enfim… não dizem que é depois dele que surge um novo começo? Esquece a coerência, escuta o coração. Se ele ainda bater no mesmo compasso, então muda o teu passo e vem bater no meu endereço. Não aprendi a dançar, mas ainda sei fazer rima. E lembro exatamente a receita que você gosta: vou combinar açúcar e canela e falar mesóclises ao seu ouvido. Não se preocupe, não vou esperar resposta. Quero apenas que você tire o caderno das minhas mãos antes de eu terminar a última estrofe, me abrace forte e me arranque um beijo. Acelera a minha respiração, faz eu me perder no teu labirinto de poros e pelos. Não, não me deixa terminar. Antes, me entrega teus arrepios, saliva e suor. Me cega para o que difere o tesão da coesão. Me fere, carrega pedaços de mim em tuas unhas e me faz esquecer as outras dores. Não espere: venha buscar o último verso em meus lábios e suga-lo do íntimo da minha alma – você conhece o caminho à beça. Não tenha calma. Minha poesia e meu coração têm pressa.








Adaptação/paráfrase do texto  "Quanto tempo leva pra esquecer alguém", de Sâmia Louise, publicado em: http://www.casalsemvergonha.com.br/2014/11/12/quanto-tempo-leva-pra-esquecer-alguem/


quinta-feira, 6 de novembro de 2014

A velocidade da resposta prova o quanto você gosta







A gente sabe bem como levamos a vida. Algumas vezes até podemos não saber o que fazer, mas sempre sabemos o que não fazer. Tolice é negar que não sabe quando está fazendo uma coisa que não gostaria que fizessem com você.
É engraçado pensar que a certeza que hoje você pode ostentar pode se fazer contra você amanhã. Ou seja, a pessoa que corre atrás de você hoje e que você insiste em ignorar é exatamente você amanhã correndo atrás de outro alguém que vai insistir em te ignorar. Por outro lado, não é pra fingir sentir uma coisa quando na verdade sente outra. É só pra se colocar no lugar. O lugar mais difícil do mundo de estar é no lugar do outro. Você sabe quando tem alguém se interessando por você. Dá pra perceber os sinais, dá pra contar na quantidade de exclamações no fim das frases ou na inclusão de um coraçãozinho em ou outro momento da conversa ou até mesmo na sua inserção nos planos de fim de semana desse alguém. E disso pra um apelido carinhoso é um pulo. Você sabe. E outra coisa, você sabe quando está dando abertura para que sejam assim com você, pois como sabemos: pode até não saber o que quer, mas sabe bem o que não ser, então, você sabe o que fazer para cortar esperanças ao invés de cultivar ainda mais.
Talvez não seja tão definitivo dizer que a velocidade da resposta prova o quanto você gosta. Você pode realmente ser uma pessoa desligada e que se perde nos contatos e no que estão te dizendo ou talvez você simplesmente se ocupa muito que não dá tempo de responder depressa. Mas é interessante refletir sobre: 1) como você se comporta quando te respondem rápido 2) como você se comporta quando está esperando uma resposta. E nós sabemos que quando somos nós quem espera os pesos parecem ser diferentes. Em pensar que já achamos gentil que puxassem a cadeira ou que fizessem questão de pagar a conta, hoje a comemoração é com a resposta depois do “visualizada”. E o louco é que as pessoas continuaram as mesmas, sentindo as mesmas coisas, só que com as novas ferramentas, elas meio que se confundiram no modo de ser e se expressar. Presta atenção na velocidade com que te respondem. Presta atenção na velocidade com que gostaria que te respondessem. É naquela conversa despretensiosa que existe um jogo que não tem vencedor. Nem tudo é pela vitória. Há tentativas que são mais prazerosas que realizações. Não tem o que competir, não tem o que calcular, é preciso respeitar a música que diz da importância de saber viver. É preciso pagar pra ver no que vai dar, é preciso tentar antes de lamentar. “Mas eu tenho preguiça, eu cansei” – então você pode escolher qual cemitério dormir à partir de amanhã já que se dá assim por vencido, já que a sua vida não tem mais motivo.
Muitas vezes você se vê reclamando que ninguém te dá atenção, mas você não reconhece quem te dá. Não se trata, porém, de facilitar para quem demonstra que gosta de você. Essas coisas não funcionam assim. Mas é para você enxergar em quem tem tentado te fazer bem um jeito de você fazer o mesmo quando estiver sentindo algo parecido. Você não precisa ficar com quem quer ficar com você, mas seria bonito se você soubesse respeitar. Hoje em dia, nós sabemos, é tão difícil identificar quando a intenção é boa, mas isso não pode afastar as boas pessoas.
Eu sei que já encontrou em alguém do passado algumas coisas que sempre sonhou viver. E que muitas dessas coisas te parecem repetitivas para reviver com um novo alguém. Mas quem pode te garantir isso? Sabemos como chocolate é bom e qual sensação proporciona mas nunca paramos de comer o mesmo chocolate. Esse negócio de planejar o calendário é tão pessimista. Ter a pretensão de querer saber como lidar quando o coração bater é como se quiséssemos escolher o jeito que o dia vai nascer, esquecendo que, tem vezes que a gente gosta de dias de sol, tem vezes que a chuva é que faz bem. Não é pelo sexo, não é pelo tesão, é por algo muito antes disso e talvez até mais valioso: é por atenção.
A velocidade da resposta prova o quanto alguém quer saber da sua opinião; prova o quanto alguém está se esforçando em se fazer interessante pra você; prova o quanto alguém abre mão de outros momentos da vida, de outras respostas respondidas, para ter aquela só pra você; prova que pra esse alguém você é quem mais importa e merece saber. Dá pra ver por essa ótica? Dá pra pelo menos tentar? Dá pra parar de julgar como esse “câncer” chamado “grude”? Dá pra reconhecer que você no lugar desse alguém faz exatamente as mesmas coisas? E vale repetir: não se trata de você ceder e tentar por tentar, se trata de você fazer sua parte pra ver no que vai dar, e ainda que não renda beijos, pode te render outros bons momentos. Não é só de amor que se vive. É da conversa de “Tá melhor que ontem?” de alguém preocupado com você. É da conversa de “Pensei em te chamar pra jantar!” de alguém interessado em ter sua companhia. É da conversa de “Qual o seu maior sonho?” de alguém curioso em saber mais sobre coisas que você sempre quis falar.





Por Márcio Rodrigues em: http://umtravesseiroparadois.wordpress.com/2014/11/05/a-velocidade-da-resposta-prova-o-quanto-voce-gosta/