sábado, 7 de junho de 2014

''Saudade é''






Um suspiro.
Não sei do quê. Sei que foi comprido. E alto. E cheio de alguma coisa que não é ar.
Juro que tinha ambulância preenchendo a noite. Um clichê, quando paramos para prestar atenção na cidade. Mas tinha uma ambulância. Alguns cachorros latindo. Carros passando na avenida e aquela moto se esguelando como faz todo final de semana. Até sirene de polícia. Um grilo! – ou dois – pude ouvir quando cortinei os olhos. E quando não tive mais com o que distrair a visão, nada além de uma black paisagem, percebi que era a saudade entrando pelo meu nariz. Eu inspirava saudade.
Um dia, me lembro de doer dela. Ela longe. Ela longe até quando voltava pra cidade. Ela escorregando de mim o tempo todo. A saudade que dá mesmo enquanto ela me encarcerava com palavras. Voláteis, como nasceram para ser. Porém não como eu lido com elas. Engarrafar os dias de uma vida e qualquer pensamento é a desculpa com mais sentido para continuar aqui.
Sentir saudade só do que não é meu.
Saudade que deixa o coração inchado e meio dolorido até. Saudade é cólica cardíaca. Você acha que expirar o que é tóxico dela, depois de consentir sua entrada, vai resolver tudo e você pode dormir normalmente à uma da manhã. Não. Você enruga a cama, suando saudade. Tá tudo confessado no lençol. Saudadumidade. Entregue explicitamente para só eu mesmo saber. E guardar. A saudade é minha. Não preciso dividir com ninguém. Preciso lavar esse lençol e voltar pros grilos e as sirenes. Agora algum carro arrombado pede ajuda. E vai partir sem um bilhete, uma mensagem no celular. Mas pode ser só um dono desligado, que não se atenta que portas abertas convidam sempre alguém para entrar.










Adaptação do texto ''Saudade é'', de Priscila Nicolielo, postado no blog http://priscilanicolielo.com/ .

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Sobre o pouco que sobrou dela





 Ele acordou com vontade de fumar. É estranho, geralmente isso nunca acontece. As manchas nas pontas dos dedos denunciam que as noites já costumam ser enfumaçadas, ele não precisa que suas manhãs também sejam. Era uma manhã bonita. Céu azul, sol, era fim de julho, porém inverno. Estava bonito, não estava quente como costumam ser os dias de sol nos trópicos, estava agradável. Não estava agradável o ar em sua volta. Ele não sabia direito qual era a razão. Queria algum significado, pelo menos entender o aperto no peito. Queria um cigarro.

Enrolou um pouco antes de começar sua rotina, que consistia basicamente em encontrar as forças numa xícara de café, tomar banho, vestir qualquer camiseta e sentar diante da tela em branco e rezar para que as palavras cheguem sem doer muito. Nessa enrolada passou os olhos numa rede social de fotos que participa, ainda que seja contra redes sociais virtuais. Só que em vez de fotos, só tinham postado mensagens. Acreditou mais uma vez não pertencer a esse mundo. Lembrou de uma frase de Paulo Francis: “cheguei tarde demais num mundo muito velho”. Algo assim. No meio daquele mar de palavras em vez de imagens que diriam mais do que mil daquelas, citações duvidosas de Clarice, Verissimo, Caio Fernando, Jabor e até do Jô Soares. Não acreditou em nenhuma daquelas frases. Nem sentiu vontade de escrever alguma.

O pescoço doía, mas se sentia mais a fim de ficar ali, com dores no corpo do que atrás de um renovador banho de sol invernal. Talvez ali conseguisse ficar invisível durante um tempo, caso o celular não tocasse. Poderia não atender, depois dizer que estava dirigindo ou no banco, caso cobrassem. Poderia não falar com ninguém, não mandar uma mensagem, nem ler. Nem ler mensagens edificiantes e mentirosas de Clarice, Verissimo, Caio Fernando, Jabor e até do Jô Soares, que os próprios provavelmente nunca escreveram – se escreveram, enganaram. Nutriu uma pequena vontade de que quando não desse mais e tivesse que pisar no chão frio, fosse 1991, 1967 ou até 2010, já estava bom, daria pra fazer uma série de coisas de um jeito diferente.

Olhou para o celular. No fundo, ele sabia. Naquele dia fez três anos. Por onde ela anda? Era meio dia e o aplicativo de troca de mensagens avisou que ela tinha sido vista por último meia hora antes. Pra onde será que ela foi? O pouco dela que sobrou três anos depois vive somente num aplicativo de mensagens instantâneas, num mundo virtual cheio de mensagens falsas de Clarice, Verissimo, Caio Fernando, Jabor e até do Jô Soares. Ela provavelmente deve gostar dessas frases, ele não sabe, não a segue, é melhor assim. Ele quase escreveu uma mensagem, mas diria o quê? Só um “oi” resolveria? Talvez, mas não iria adiante. Se  tivesse pulado da cama e enfrentasse o sol gostoso de inverno talvez a encontrasse por aí. Meia hora antes ela tinha sido vista virtualmente, agora já devia ter caído no mundo. Já devia ter programado o dia, estaria almoçando com outro, combinado um fim de semana com outro, outro que nunca deve realmente ter lido Clarice, Verissimo, Caio Fernando, Jabor e até o Jô Soares. Talvez ele só quisesse mesmo dizer “oi”. Caso a veja, diga por mim. Será que por um segundo ela pensou nele e lembrou que três anos se passaram? Não, provavelmente não. O mundo não é assim, uma comédia romântica surreal, um filme com final feliz. O mundo é de mensagens falsas de Clarice, Verissimo, Caio Fernando, Jabor e até do Jô Soares. Ele queria dizer somente um ”oi”. Acendeu um cigarro.












''O pouco dela que sobrou num aplicativo de mensagens instantâneas'', por Alexandre Petillo em: http://www.casalsemvergonha.com.br/2014/06/05/o-pouco-dela-que-sobrou-num-aplicativo-de-mensagens-instantaneas/


domingo, 1 de junho de 2014

Eu podia


Eu podia, você sabe. Podia falar horrores de você e dizer que você me magoou e dizer que doeu e dizer que ninguém devia acreditar nas coisas que você diz. Eu podia contar daquele jantar de quarta em que você abraçou e jurou e  foi quem eu sempre achei que fosse. Pior, eu podia expor quem você foi quando se esqueceu de tudo e enfiou o dedo na ferida, como se tanta coisa tivesse ficado presa e você precisasse magoar qualquer um, qualquer um, pra doer menos aí dentro. Eu podia dizer como você me tratou como qualquer um.

Eu podia falar mal e apontar os seus defeitos e dizer das mentiras que você conta numa tentativa frustrada de ser logo a pessoa que você queria ser. Eu podia contar daquela vez em que você desviou os olhos e fingiu que não era com você, ainda que você soubesse que era e ainda que soubesse bem da culpa que tinha. Eu podia jogar na cara todas as suas palavras vazias de quem tem muito o que falar – e fala muito – mas no fundo não diz nada além de: eu não tenho ideia do que tô falando. Eu podia falar sobre o tanto que eu apostei em você – e sobre o preço que tô pagando por essa aposta.

Eu podia te contar de como minha mãe ainda pergunta por você e quer sempre saber se você tá bem, se tá com saúde, por que não vem mais aqui em casa. Eu podia revelar que ela sempre me culpa pelo nosso fim, porque é isso o que vocês mais gostam de fazer: achar que quem erra sou sempre eu. Eu podia, realmente, te perdoar por tudo e esquecer qualquer coisa e achar que a gente conseguiria começar tudo de novo. Mas eu sei e você sabe que não é exatamente isso o que você quer.

Eu podia continuar gritando e continuar escrevendo e continuar falando para todo mundo sobre tudo o que aconteceu e me irritando porque você sequer deu a chance da gente tentar consertar. Eu podia continuar mastigando essas dores e remoendo esse passado e me questionando por que a gente acaba magoando e sendo magoado por quem a gente ama. Eu podia espalhar por aí sobre a pessoa horrível que você foi e como todos deveriam se manter afastados.

Eu podia, você sabe. Mas sabe também que o tempo passou e que, com o tempo, um pouco de maturidade é acrescentado à soma. Sabe também que eu não tenho mais saúde, nem tempo, nem disposição, nem energia para ser o menino besta que adorava uma boa briga como eu era até outro dia. Sabe também que eu aprendi algumas coisas ao longo do caminho, inclusive com você.

Por isso, de todas as coisas que eu podia te falar, falo isso: enquanto deu, você foi tudo o que eu achei que era. Enquanto deu, você me aguentou e segurou as pontas e ouviu minhas dúvidas sobre o mundo e o universo e a merda toda que a gente tá fazendo aqui. Enquanto deu, você foi – e de todas as coisas que eu quero lembrar, lembro disso: de todo o amor que você me deu e eu tentei devolver no tempo em que fiquei na sua vida. Porque o resto, o resto é só a vida sendo a vida e os defeitos sendo os nossos defeitos e polos iguais se repelindo. É só isso, sem mais conversas, sem mais reclamações, sem mais nada.

Porque eu podia, te juro, podia. Mas já não posso. Já não dá.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Foi amor





Amor foi aquele primeiro beijo embaixo da cascata da piscina. Amor foi quando você baixou as mãos no nosso segundo encontro e encostou timidamente seus dedos nos meus. Foi a forma como você se inclinou pra direita pra fazer caber o meu braço em volta do teu quadril, rodando o corpo um pouco pra se encaixar em mim na saída do cinema. Foi quando você me levou num píer abandonado pertinho da praia num dia nada bonito e eu não sabia bem o que esperar, só sabia que você já tinha ido ali com outra pessoa e isso me incomodava um pouco, sabe? Me incomodava que alguém pudesse ter sentido o que eu senti, pudesse ter feito o que eu fiz ou até mais, me incomodava saber dos seus fantasmas. Amor foi quando eu senti tudo isso e você me mostrou o céu enquanto encostava no meu peito, no píer, com as mãos na água como se prometesse baixinho que eu poderia ficar por ali uma vida inteira.





Amor foi aquela nossa ida ao farol no fim de setembro e todas as selfies que a gente tirou no meio do caminho, entre corais e ouriços. Foi a almofada que você me deu quando eu bati a cabeça na porta do seu carro e nunca mais consegui dormir direito sem quase quebrar o pescoço.  Foi o porta-retratos na minha mesa do trabalho e o elogio do chefe de ''como, puxa, você é um cara de sorte e os olhos dela te fazem um bem danado, hein?''.  Faziam um bem danado, abertos ou fechados, desde que eu pudesse atravessá-los até chegar em você. E me lembro bem que foi amor quando eu remei, nadei, até aprendi a fazer umas acrobacias subquáticas pra te pedir desculpas por tudo. Amor era você me chamando carinhosamente de ''namoradinho''. Amor era você me chamando por primeiro e segundo nome quando eu fazia algo errado. Amor foi aquele cartão borrado e cheio dos meus garranchos que te dei quando não tinha flores.
Amor foi aquele ''jantar'' de aniversário de namoro a base de empadas.  E a dieta da proteína da outra semana, a ortomolecular da próxima e todas as segundas que a gente passou de cara feia um pro outro sem saber que era fome. Foi o saco de lixo com uns papéis importantes que você botou pra fora, porra, cê podia ter perguntado se eu ia precisar de alguma coisa dali, né? Eu precisava e não adiantaria de nada você ter perguntado porque eu nunca reparo nos detalhes. Teria visto a pilha em cima da mesa e despachado, assim como eu vi as coisas todas e deixei de lado, em algum canto do meu quarto desarrumado, nem fiz questão de botar pra baixo do tapete. E amor foi quando você trancou a porta do quarto porque eu disse que não ia voltar naquela noite. Nem na outra, nem na próxima noite e em semana alguma. Foi quando você tentou desmarcar uns compromissos enquanto eu mantinha a agenda fechada e dizia '' não posso hoje, desculpa, vamos tentar na semana que vem?'' Amor foi quando você continuou ligando e até me comprou presente de aniversário quando a gente finalmente se sentou pra discutir. Foi quando você pediu pro garçom não trazer gelo – porque eu tava doente – e me entregou um casaco pra me aquecer – porque já passava das 22h e eu não precisei dizer um pio pra você descobrir minha gripe. Foi quando você me contou o que tava fazendo e riu de como me conhecia nos detalhes, quando confessou que sabia que tinha algo de errado e que eu não era mais o mesmo, foi quando você podia ter me deixado, mas me deixou na porta de casa e disse que esperava que eu ficasse bem.
E eu só vi isso tudo quando você foi embora. Porque aquilo também foi amor.





domingo, 18 de maio de 2014

''Antes de você eu já sorria''




É então, foi isso.
Nem chegou a começar e eu já tenho que lidar com o fim.
Mas isso não é novidade pra mim, e também não falo isso pra me fazer de vítima.
É que a gente vai criando uma casca e poucas coisas impressionam tanto.
E isso é algo que tem um lado bom e um ruim:
- o bom é que nos protegemos
- o ruim é que nos protegemos tanto que deixamos de nos permitir.
Mas eu tenho consciência dessas coisas, não é bem por aí comigo.
E ter consciência tem um lado bom e ruim:
- o bom é que eu sei que devo me permitir
- o ruim e que eu sei que deveria me permitir menos às vezes. (mas só às vezes).
É isso.
Tenho que te ver indo embora e não há nada que eu posso fazer pra voltar.
Eu nunca te obrigaria a viver algo que não gostaria. Nunca te falaria coisas que eu não gostaria de ouvir. E eu já fiz tudo, apesar de tão pouco tempo juntos.
Tem coisas que a gente precisar admitir antes de querer arrumar. Então eu já entendi que essa foi só mais uma vez que não deu certo pra mim. E no momento quero aproveitar o meu direito de pouco me importar com aquela história de que “deu certo enquanto houve história”, pra mim, por enquanto, não deu certo merda nenhuma. Ver indo embora uma pessoa que você gosta não significa dar certo em nada. Apesar de ser verdade, vou levar um tempo pra concordar que foi bom enquanto durou, por enquanto só repito pra mim mesmo o quanto me frustra aceitar que terminou.
Engraçado que eu me dediquei.
Mais uma vez eu me dediquei e tentei ser uma pessoa boa. E acho até que consegui.
Só que nem todo mundo está pronto para a pessoa que somos.
As fases precisam coincidir para que algo a mais possa existir e resistir.
É aquela história: às vezes somos a pessoa certa na hora errada, às vezes somos o contrário.
Gostaria, porém, que nunca duvidasse das coisas que já te disse.
Se não quiser guardar minhas mensagens, guarde minha verdade. É que eu sempre fui real em cada coisa que te falei ou te escrevi.
Lembra quando eu disse que gostava do jeito que mexia no cabelo? É então, eu gostava mesmo, não era conversinha fiada pra te levar pra cama. Lembra quando eu te disse que sentia saudade mesmo tendo acabado de sair da sua casa? É então, eu sentia mesmo, não falava isso pra você me achar bonitinho e fofo. Lembra quando eu disse que poucas vezes me senti com alguém igual me sentia com você? É então, poucas mesmo, talvez nunca. Era bom me sentir bem do seu lado. Lembra quando eu disse não me importar em você sair com seus amigos e aproveitar seu tempo? É, eu não me importava mesmo. Não fazia charme ciumento pra você se tocar e ficar comigo. Sempre pensei que precisava viver as coisas que gosta. Eu apareci na sua vida pra somar não pra subtrair. Lembra quando falei que podia comer metade da minha barra de chocolate? Então, podia mesmo. (só não podia comer a barra toda.)
Eu até que fico feliz.
Apesar de ainda não saber lidar muito bem com esse fim – quem sabe lidar com algum fim? – eu fico feliz ao lembrar que fiz minha parte para que nunca me esqueça. Tem que começar uma história fazendo história. E eu tenho certeza que nunca vai me esquecer. Isso é algo que estranhamente me faz bem.
Sei lá, esse gostinho de “missão cumprida”, de que marquei uma outra vida com parte da minha, é algo que faz bem.
Digo isso por ter certeza que você vai se lembrar de mim em vários momentos da sua vida. Pra sempre.
Você vai lembrar das minhas manias, vai lembrar do jeito que a gente ria. E capaz que lembrará disso após a próxima boca que beijar.
E nem que demore pra acontecer, nós ainda vamos nos encontrar nas lembranças dessa cidade. Talvez nos relógios das avenidas ou nas calçadas largas; talvez nas sorveterias ou talvez na fumaça da caneca em uma noite de frio. Não quero amaldiçoar seu futuro com o nosso passado, mas de mim você vai lembrar e essa é uma verdade que você deve aprender a lidar.
Bem, é isso então.
Pareço estranhamente conformado ao falar desse modo?
Até eu me assusto com essa minha tranquilidade toda.
Mas dá pra explicar: eu já me apaixonei por tantos beijos que me deixaram pra trás, já incluí tantas pessoas nos meus sonhos que depois não quiseram mais, já comentei pra minha família sobre tantas pessoas que depois foram embora, que não me estranha aceitar que mais uma vez aconteceu assim. É uma pena porque eu estava até que gostando dessa coisa de conversar sempre, de contar detalhes do dia e perguntar sobre a família, sabe? Essa coisa toda de dividir a própria vida com outra. Mas eu não te quero obrigada à viver comigo. Tentei te mostrar que tínhamos uma bonita história pra viver e mais do que ficar mal por não ter dado certo, eu fico bem por ter certeza de que fui pra você quem eu gostaria que fossem pra mim.
Está tudo bem e tudo vai ficar ainda melhor, afinal, antes de você eu já sorria.

Por Márcio Rodrigues em: http://umtravesseiroparadois.wordpress.com/2014/05/15/antes-de-voce-eu-ja-sorria/

Conta pra ele


Conta pra ele que na terça-feira passada eu não dormi por sua causa.
Conta que eu deitei de jeans, subi na cama de sapatos e me prendi em você. Que tava com seu cheiro nas mãos, no ombro, na camiseta e queria que ele se propagasse pelo quarto. Que pedi o nome do perfume pra comprar e deixar na cabeceira, pra tentar sanar minha gana de sentir você no mesmo espaço que eu.
Eu só me lembro que era noite já, tava frio, a fila da boate tava insuportável e você apareceu na porta no exato momento em que eu pedi três doses de tequila e a música começou a tocar. Você tava com ele, passou por perto com ele, subiu as escadas com ele – e manteve o olhar em mim. Por que você era dele e não minha? Porque as coisas não funcionam assim e cada um tem o seu paraíso particular, jurei pra mim. Jurei que não tava perdido, que tava tudo bem, que essas coisas que balançam a gente geralmente se prolongam e não ia ser aquele seu vestido florido ou o modo como você me descobria que iria mudar as coisas.
Conta pra ele que duas semanas depois você me diria – trancado num quarto mal iluminado e deitada no meu peito – que eu era a sua maior história de amor interrompida. E eu pensava, não falava, segurava o nó na garganta pra não te sujar com a minha instabilidade, pra não te dizer que eu tava me apaixonando, que as coisas já tinham desandado, que agora eu te levava pra passear comigo numa montanha-russa sentimental e que as travas da cadeira não tavam funcionando direito. Não te diria que eu reparo no jeito que o cabelo cai nos seus olhos e em como você tem o abraço mais regulável do mundo, que não se importa se eu visto M ou G, que não liga pra minha falta de memória, que acorda todo dia com um bom dia meu.
E conta pra ele que a playlist do meu iPod segue uma lógica pouco seletiva de canções que têm você como ritmo, ditando todo aquele ressoar pomposo que o meu peito faz quando cê tá por perto. Conta e tenta explicar aquela coisa dos teus lábios curvados num sorriso de lado, a expressão de surpresa, a sua cara de reprovação e a cabeça baixa deitada no meu ombro enquanto canta baixinho ''o tempo'' e não deixa mesmo, me segura entre os dedos porque eu tenho uma mania feia e fácil de escapar.
Conta pra ele que você conheceu alguém novo e que alguma coisa aconteceu às 5h30 da manhã de uma quarta-feira, mesmo você não tendo encostado a sua boca em mim, mesmo a gente tendo sobrevivido de abraços, boa noite e dorme bem. Explica como fica pausada-a-sua-respiração-em-fragmentos-detectíveis-e-como-todo-mundo-em-todo-lugar-repara-na-gente-junto. Conta que eu escrevo sobre você, que me lembro de você em cada curva que faço ou em cada estação de rádio que o carona do meu carro deixa parar. Conta que eu ando sonhando em como vai ser daqui pra frente porque a minha cabeça tá fudida, meu coração tá pesando, eu não sei o que eu tô fazendo, mas só sei que isso é bom. E como pode ser tão errado se você me faz feliz desde o dia em que sorriu pra mim?
Conta pra ele, baixinho, diz algo assim: “amor, eu não sei o que aconteceu, eu nem sei direito o que eu tô sentindo, mas ele me empurrou de um precípicio e agora eu tô caindo em queda livre junto dele”. Diz que encontrou alguém novo, que precisa ir embora e que a culpa não é dele. Se despede de cabeça baixa e não surta, me liga se for dia ou se for chuva, me manda um recado pra ir te buscar e te dizer que eu tenho certeza de nada ou que vou finalmente sumir e te deixar livre de mim. Mas antes disso, conta pra ele que me ama. Ou acaba com isso logo e conta pra mim.

terça-feira, 13 de maio de 2014

Se cuida


Vê se não esquece de tomar seu remédio duas vezes por dia. Não cancela os alarmes que programei, que senão você nunca mais lembra, cê sabe. Tenta não esquecer de fazer refeições mais saudáveis – o médico pediu para você maneirar se quiser se ver livre da gastrite nervosa. Coloca salada no prato, pelo amor de Deus. Ou por amor a si. Ou pelo amor que você já teve por mim. Não importa, só tô pedindo para você deixar um pouco o bacon de lado e tentar descobrir as vantagens do alface. Tô só te pedindo isso: nem que seja forçada, se cuida.

Tenta dormir umas 8 horas por dia. Esquece essa mania insana de querer abraçar o mundo com esses braços curtos que cê tem. Você é nova, não precisa querer fazer tudo de uma vez. Eu sei que a vida passa rápido, que o tempo corre, que ontem você era uma criança e amanhã já vai ter quase quarenta, mas quem se importa? Ficar nessa neura de querer realizar tudo – agora! – ainda vai acabar te matando.

Eu sei que você sempre amou essa coisa maluca da cidade grande, mas pisa no freio de vez em quando. Pega a estrada e vai pro mar. Visita aquela praia que a gente costumava frequentar. Ou procura outro pra não acabar esbarrando comigo pelos lugares em que a gente foi feliz. Visita sua cidadezinha do interior. Mas procura um lugar em que você lembre o que é estar calma. Lembra que você precisa disso uma vez ou outra.

Liga para sua mãe se precisar chorar. Ou pro seu irmão. Ou para aquela amiga de infância. Agora que eu não estarei aí, não hesite em pedir ajuda. Ou, se não tiver quem procurar, me liga. Não tem problema, pode me ligar. Eu te amei um dia (e, de algum jeito estranho e escondido, ainda te amo), não vou desligar na sua cara. Só não segura tudo isso. Não segura todas as dores. Nem fica achando que você precisa seguir o estereótipo de mulher feliz e jovem e alegre que a publicidade vende nos comerciais de margarina. E nem por um segundo pense que, só porque a gente não tá mais junto, eu deixei de me importar.

 Olha para os dois lados antes de atravessar a rua. Avisa aos outros pra onde você tá indo. E começa a ligar pras pessoas só pra lembrar que você tá viva. Tenha mais cuidado ao se jogar de cabeça em todas as relações que encontra e acredite mais nos olhos da pessoa amada do que em pessoas de fora da relação. E poupa um pouco seu coração pra ver se você acha, finalmente, um cara que te mereça e que você queira, de verdade, com todas as suas forças, corresponder. E vê se se cuida, amor. Que é desesperador pensar que eu, logo eu, não vou mais cuidar. 

segunda-feira, 28 de abril de 2014

''Eu sou um filme pra você assistir de novo''


Nós marcamos a vida das pessoas.
E aí depende da gente sobre qual maneira vamos marcar.
Tem palavras que renovam vidas, tem outras que destroem auto-estimas.
Tem pessoas que amaldiçoam perfumes e que nunca mais conseguem fazer com que esqueçamos delas ao sentir o mesmo cheiro outra vez qualquer. Tem gente que pega alguns dos refrões que gostamos pra si e custa para que consigamos ouvir novamente sem ter uma visita da lembrança. Nós somos tão submissos à nós mesmos.
Por isso nós gostamos de datas.
Datas servem pra marcar ainda mais a vida de uma pessoa na outra.
O primeiro beijo, o primeiro sim, a primeira vez, o primeiro filme, a primeira viagem, e tantos outros primeiros que construímos e que muitas vezes acabam se tornando eternos. Este somos nós: sempre em busca de motivos pra celebrar e as datas servem pra isso. Sem contar que não tem como não querer se prender a esse tipo de coisa, pois a sua memória pode não funcionar, mas o calendário estará sempre lá pra te lembrar no acaso de um segundo que aquele dia x não é so um dia x. Nós amamos motivos pra comemorar, nós amamos o “aquele dia que passamos juntos”.
Beijamos com a mão na nuca porque gostamos disso. É assim que gostamos beijar.
Pode ser que outras pessoas também o fazem, mas nós temos um jeito nosso de fazer e é esse jeito que será lembrado. Outros gostam de beijos com a mão no rosto e por aí vai. Na prateleira da vida tem uma caixinha de surpresas chamada futuro. É lá que vamos nos surpreender com uma onda de lembranças do que já vivemos e das pessoas que já passaram pela gente. E dentro das lembranças, existem as que inspiram e as que aterrorizam. As que inspiram existem pra nos lembrar de quanta coisa boa já vivemos e quão capazes somos de viver coisas ainda melhores, já as lembranças que aterrorizam são as que trazem à tona cada um daqueles momentos que nós não gostaríamos de ter vivido. O mérito aqui não é desqualificar a importância da dor na vida de uma pessoa, mas sim o desejo real e justo de sofrer menos nessa vida já sofrida.
Em cada beijo que damos, damos também um pedaço do que somos.
O mesmo funciona para os abraços e para as noites de sexo. Por isso, viver uma história com alguém é doar parte da própria vida pra fazer com que a vida da outra pessoa seja melhor.
Talvez por isso que nos abalamos tanto quando uma pessoa nova entra na nossa vida. E aí, assustados dada a importância desse momento, nos defendemos alegando medo de sofrer de novo ou alguma outra daquelas respostas que damos para tentar explicar porque as coisas não saem do lugar, até nos rendermos. É que do primeiro beijo até o último segundo juntos acontece uma troca de vidas; um empresta parte da própria pro outro. Nós damos permissão para um corpo estranho dormir ao lado do nosso, damos permissão para uma nova voz nos fazer companhia no dia a dia, damos permissão para que essa outra pessoa tenha a liberdade de falar sobre o que podemos melhorar. Por isso a tristeza é tão forte quando alguém vai embora da nossa vida. Porque ela não leva só os momentos que foram vividos; essa pessoa leva parte do que somos e do que fomos durante toda a história, dure 1 dia ou 100 anos.
Acreditar em alguém é o um investimento de alto risco. Mas é um investimento sempre válido.
No fim das contas, o negócio é que você nunca será esquecido.
Talvez a rotina e a lentidão do tempo para te trazer novidades te façam pensar que deixou de ser um para se tornar mais um, mas pelo contrário. Entenda que ninguém também vai ficar te lembrando como você foi importante para aquela pessoa, mas no que vale se apegar é na certeza de que você fez tua parte para tentar melhorar a vida daquela pessoa.
O famoso “viver intensamente cada segundo” significa que está nas nossas mãos a possibilidade de fazer com que um segundo qualquer se torne uma daquelas novas datas para serem lembradas. É trazendo para os menores exemplos que dá pra enxergar as maiores atitudes. Entenda que a sua lembrança faz morada na vida de quem já passou por você. De vez em quando esse alguém que já passou por você te encontra num momento da vida em forma de saudade. E isso tudo que estamos falando não é para servir de consolo, mas é pra te fazer enxergar uma verdade, te fazer ver que vale muito mais a pena ser real do que ser uma paisagem, que vale muito a pena aproveitar do poder que temos de melhorar vidas.
Não meça esforço, ele pode ser o último da sua vida. E vale a pena saber que o mínimo que fazemos pode ser o máximo que alguém pode ter. As pessoas não esquecem, só param de lembrar. Você sempre será lembrado, tipo um filme pra ver de novo.
Por Márcio Rodrigues em: http://umtravesseiroparadois.wordpress.com/2014/04/28/eu-sou-um-filme-pra-voce-assistir-de-novo/

''Vocês estão estragando tudo''


É difícil ter que continuar nadando nesse mar de gente sem coração.
É por isso que cada vez mais a gente vê tantas pessoas desacreditando sobre os mais bonitos sentimentos dessa vida.
Talvez seja por isso também que os refrões de mais sucesso são os de dor.
Vocês estão estragando tudo!
Esse negócio de entrar na vida de uma pessoa, ajudando a fazer com que 1 minuto se transforme em uma vida inteira, e depois sair dessa mesma vida sem mais nem menos, não é algo que se recomende pra ninguém.
Parece que ninguém mais se importa com ninguém.
As pessoas estão deixando de ser pessoas para se tornarem copos plásticos, daqueles que você usa e depois joga fora sem pensar duas vezes. A metáfora pode ser pobre mas nem por isso menos certeira.
Dizer que gosta de alguém se tornou motivo pra se afastar e não pra se aproximar; parece ser a pior coisa a se ouvir, parece que cria-se então um escudo ou algo do tipo “não me venha com essa história”. Aí vem gente que diz “calma, já sofri demais e não quero passar por isso de novo” e essa reação soa como uma vingança em outra pessoa que nem tem culpa de nada, e que até que prove o contrário, é só mais uma pessoa tentando ser feliz com alguém.
Confessar felicidade pela volta dos sorrisos, todos dedicados à alguém especial, também não é algo para se comemorar, é algo para prejudicar, para colocar por terra todos os planos.
O que vocês querem da vida então?
Não dá pra perceber na segunda palavra que a pessoa está abrindo a vida pra você entrar? Não tem como dizer pro coração: “goste um pouco mais devagar”. Quem consegue esconder que está gostando? Por quê então fazem tão pouco com o muito que tanto fazem por vocês?
Vocês estão estragando tudo!
É mais fácil conhecer uma pessoa que tem uma história triste pra contar do que uma feliz pra inspirar. E isso é culpa de vocês!
Isso é culpa de vocês que não sabem o que querem, que trocam de opinião como trocam de roupa, que passam de um amor pro outro com se fosse uma baldeação no metrô. A vida não é só de vocês que agem dessa maneira, não mesmo!
Um beijo é feito por duas bocas, que fazem parte de duas pessoas, onde cada uma tem um coração e uma reação diferente, onde cada uma aproveita de um jeito diferente. Isso significa que tudo o que você fizer que tenha relação com outra pessoa terá efeito nessa outra pessoa. A língua portuguesa resume isso em uma palavra: respeito.
O olho no olho depois de um beijo é o passaporte para fazer as malas e se mudar para dentro da vida da pessoa.
Mas por quê vocês estão estragando tudo, então?
Por quê vocês inventam tantas histórias como se lidassem com crianças recém nascidas? “Ah, porque eu não quero te ver mal”. Que saco, quanto mais você faz algo que não é sua vontade para não ver a pessoa mal, mais mal você está fazendo à ela. Se a sua vontade é ir embora e nunca mais telefonar, que seja dito isso e não algo do tipo: “Acho que você gosta mais de mim do que eu de você!”. Esta é uma das piores coisas a se ouvir!
Não se vive uma história pela competição, se vive pelo coração.
É este coração que diz o quanto está gostando, o quanto está fazendo bem; ele que diz o tamanho da vontade de planejar coisas e incluir alguém nesses planos. Não existe essa merda de história de alguém gostar mais que outro alguém, as pessoas gostam diferente, de jeitos diferentes, umas demonstram mais e outras menos. O que existe é o fim das coisas. Por mais cruel que seja. Existe o fim da vontade de continuar, de ligar, de perguntar se está tudo bem, de dizer que chegou em casa, de dizer pra onde está indo. Existe o fim, é isso, existe o fim, não existem desculpas, existe o fim das coisas.
“Ah você é uma pessoa perfeita, o problema sou eu e não você!”
Mas é claro que o problema está em vocês que dizem uma coisa dessas!
Ninguém é obrigado a gostar de ninguém e nem existe um contrato com data de validade das histórias, mas existem as pessoas reais que mergulham e vivem cada segundo construindo momentos incríveis, momentos dos dois, momentos da história dos dois. Também não existe ninguém perfeito. Nem dá pra falar que existe quem erra menos, porque voltamos na questão da competição. Mas existem erros e acertos, didaticamente dessa maneira. Custa falar que cansou e que não quer mais? Custa ser real pelo menos na hora do tchau? O que não dá pra entender é como vocês inventam coisas pra justificar a real vontade de vocês!
A vontade de não machucar só machuca mais.
A mentira pra esconder só traumatiza mais.
A preocupação em manter uma amizade só diminui as chances disso se tornar verdade.
Vocês estão estragando tudo!
Vocês e essas desculpas e esse jeito de lidar com as pessoas; jeito de lidar com o que as pessoas sentem. “Ah, mas você é sentimental demais, por isso fica mal assim!” É ISSO! Vocês precisam aprender que as pessoas não são iguais à vocês. Existem as que vão sofrer e vão chorar sangue com o fim de uma história, assim como existem as que vão sair pela porta sem olhar pra trás. O que não deve existir é essa falta de respeito de vocês para com todas as outras pessoas do mundo.
Valorize quem quis te dar um beijo, poderia ser qualquer outra pessoa, mas você foi a escolhida. Valorize quem te pede pra avisar se chegou bem em casa, poderia ser uma preocupação para qualquer outra pessoa, mas é por você. Valorize quem transa com você e te entrega o corpo, poderia ser pra qualquer outra pessoa, mas é com você. Valorize quem te pede desculpas, poderia ser qualquer mentira, mas é uma desculpa pra você. Que saco, valorize quem diz que gosta de você, poderia gostar de qualquer outra pessoa, mas gosta de você.
É tudo uma questão de valorizar o que realmente importa nessa vida: o coração das pequenas coisas; a origem. Ao invés de ver possessividade no pedido de “me avisa quando chegar”, veja como alguém que se preocupa. Ao invés de ver como quem reclama demais as conversas tipo “você parece distante, não me manda mais mensagem” veja como alguém que está tentando melhorar a vida dos dois.
Vocês, vendo com esses olhos egoístas, só estão estão estragando tudo!
Quem somos é tudo o que temos nesse mundo.
E por isso, somos responsáveis em fazer desse mundo algo melhor na medida do possível.
Existe amor dentro das pessoas, sabiam? Que vocês um dia percebam isso e parem de olhar só para os próprios umbigos e percebam que estão estragando tudo, antes que seja tarde demais. Vocês estão matando o que de melhor nós temos: nosso coração.
Por Márcio Rodrigues emhttp://umtravesseiroparadois.wordpress.com/2014/04/20/voces-estao-estragando-tudo/
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sexta-feira, 28 de março de 2014

Uma carta de desamor


Me desculpe por ter tomado a iniciativa. Me desculpe por ter escrito. Me desculpe por ter ligado. Me desculpe por eu ter voz. Me desculpe por ter dito sim. Me desculpe por ter gemido. Me desculpe por ter gozado. Me desculpe por eu ter voz. Me desculpe pelos machucados que seu ex deixou em você. Me desculpe por eu ter vindo logo atrás dele. Me desculpe por querer entender seu silêncio. Me desculpe por eu ter voz. Me desculpe por eu não ter usado máscara. Me desculpe por desejar alguma intensidade. Me desculpe por desejar. Me desculpe por eu ter voz.
Me desculpe pelo que foi ruim. Me desculpe pelo que foi bom. Me desculpe pelo atrevimento de supor que eu merecia o que de bom aconteceu. Me desculpe por eu ter voz. Me desculpe por eu ter tirado a roupa. Me desculpe por eu ter mostrado meu corpo. Me desculpe por eu ter gostado de mostrar meu corpo. Me desculpe por eu ter voz. Me desculpe por eu ter escrito coisas lindas para você. Me desculpe por você não ter entendido um terço do que eu escrevi. Me desculpe por você ter me achado ousado demais. Me desculpe por eu ter voz.
Me desculpe por, em algum momento, eu ter te amado. Me desculpe por, em algum momento, eu ter te achado bonita. Me desculpe por, em algum momento, eu ter me achado bonito. Me desculpe por eu ter voz. Me desculpe pelos seus erros de português. Me desculpe pelos erros de português do seu novo namorado. Me desculpe pelo seu novo namorado achar margarida uma flor pobre. Me desculpe por eu ter voz. Me desculpe por você torcer para o Corinthians. Me desculpe se uma barata entrar na sua cozinha algum dia. Me desculpe pelos 130 km de congestionamento em São Paulo agora. Me desculpe por eu ter voz.
Mas, sobretudo, me desculpe por pedir essas ridículas, inúteis e dolorosas desculpas. Que, naturalmente, não são para você, afinal, porcos não reconhecem pérolas.
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Adaptação da Obra Original ''Uma carta de desamor'', de Stella Florence.

domingo, 16 de março de 2014

A carta que recebi dela

Você se esconde de mim e eu procuro. Procuro no meio das ruas, furando os carros, indo na direção contrária pra não ver o semáforo gritando em vermelho, pra não ter que parar e perder tempo parada sem procurar você por aí e olha, eu sinto muito, eu sinto mesmo quando disse que não vinha te ver hoje, sinto mais ainda por não ter visto sua roupa nova, por não ter escrito cartão, por não ter estado aqui.
Eu demorei pra chegar porque tava largada lá em casa, com medo e cerveja, repetindo pra mim no reflexo do vidro: ''ei, moça, você gosta dele, por que tanto medo de se entregar assim? Por que essa coisa de que você não precisa de ninguém quando claramente sofreria se ele fosse embora de vez?'', daí eu levantei, peguei a chave do carro, parei na porta e olha, quase não consegui abrir a maçaneta porque eu tremia. Engraçado isso porque eu me visto bem, com segurança, pra passar aquela ideia de que eu sou uma mulher em quem eles podem confiar, uma mulher que carrega o mundo nas costas e , ainda assim, me vi ali perdida, pequena, confusa, mas eu o amo, então fui em frente, porra!
Não consegui ligar o carro. Suei. Suei pra caralho e achei que fosse te perder porque eu sempre estrago tudo. Fiquei naquela de ligar ou não, liga logo, não ligo, ele vai descobrir as minhas manias feias e vai dar o fora, vai dar o pé, vai jogar os meus presentes no lixo e vai me matar dentro dele, vai chegar um dia e dizer que se apaixonou por uma outra mulher, uma cantora, isso, uma cantora, e contar que ela tem uma voz bonita e canta com violão pra ele, e eu vou me amargurar de tal forma, vou fingir que vou ficar bem, mas sei que vou morrer por dentro porque ele tá me matand...''e olha que besteira é essa de pensar assim? ele tá aqui agora e não no futuro, moça, vai logo atrás dele!''
E eu fui. Vim, na verdade, e cê já tinha ido embora.
Ô, meu bem, me espera e não vai, não. Me espera aí, parado num futuro-quase-concretizado, porque eu não quero usar teu nome numa frase no passado, porque eu não quero ter que explicar a burrada que eu fiz de não ter vindo te buscar logo. Larga essa mala na escada rolante e se perde no aeroporto com a sua roupa nova que cê queria tanto me mostrar, eu te grito, uso alto-falante, anuncio o teu nome no visor e te encontro antes de você ir, te impeço, por favor, meu bem, guenta mais um pouco que eu tô chegando. Faz aquela cara de bravo, mas me deixa te ver, deixa eu te fazer presente, me fazer presente, construir uma casinha pro teu cachorro e largar a cerveja e o medo um pouco de lado pra te beijar a testa e dizer que fico, eu fico pelo bem de todos e felicidade geral da minha vida, eu fico porque preciso olhar mais vezes pros seus olhos e cair pra dentro de você de manhã, me espera, vai. E é sobre o tempo que eu tanto prezo, sobre sempre estar na hora que eu erro, dessa vez eu me atrasei e não tem justificativa, mas sabe aquela coisa de que as coisas boas da vida sempre fogem do planejamento? Cê saiu de todas as linhas do meu Excel e eu tô indo atrás de você pra te buscar, pra te parar, espera eu passar por essa merda desse trânsito e me diz que fica, que aceita as minhas desculpas e que me aceita também.
Me espera, amor, que eu tô chegando pra te salvar do mundo.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Uma homenagem aos babacas que passaram por nossas vidas



Todo mundo já teve (ou vai ter) um babaca na sua vida. Os babacas (podem ser homens ou mulheres) são aquelas pessoas que estão mandando claras mensagens de que não estão nem aí para você e ainda assim você insiste. Você resiste. Você persiste.
O babaca é aquela pessoa que quando você cita o nome dela numa roda de amigos, todos eles fazem cara feia. Porque seus amigos te amam e querem seu bem. E o babaca não. O babaca é aquela pessoa que quando você finalmente consegue se livrar dele, quando, de fato, a existência dele não age mais como uma toxina no seu corpo, você não consegue acreditar que pôde se envolver com alguém assim.
Ainda assim, agradeça ao babaca por ele ter entrado (e saído! É importante que ele saia!) da sua vida.
Certamente o babaca fez você valorizar mais o amor. Fez você ver com clareza o que é ser bem tratada; o que é ser amada; o que é ser desejada por alguém. Não por ele, é lógico. Mas pelos outros que virão depois (ou os que vieram antes e você deixou passar).
O babaca faz você entender que amor correspondido não é uma coisa fácil. Não basta o papo ser legal e o sexo ser incrível. Amor correspondido não é uma flecha que num dia qualquer atinge seu babaca e ele percebe que te ama. Talvez ele tenha te amado. Talvez ele tenha tentado. Mas não é tão simples assim. Por isso quando você conhece aquela pessoa que te ama de verdade, você valoriza muito mais esse amor. Sem contar que o primeiro babaca da sua vida, aciona um radar para outros babacas. Agora você vai conseguir identifica-los com mais precisão e, assim espero, livrar-se deles na primeira oportunidade.
O babaca te prepara para os trancos e barrancos da vida amorosa. Ele dá uma ligeira endurecida naquele seu coração que antes parecia uma bola gigante de manteiga. Só não deixe que ele endureça demais. Vamos combinar que uma consistência de pudim é o ideal, tá?
Tudo o que você sofreu com o babaca, serviu para mostrar que você aguenta e ninguém morre de amor. E quando aquela pessoa legal aparecer na sua vida você vai estar mais madura, mais atenta e mais preparada para receber e retribuir todo esse amor. Por isso tudo que ele te ensinou, hoje agradeça ao seu babaca (mas agradeça mentalmente, não precisa mandar inbox e recomeçar o caso tóxico de vocês, por favor!).


Por Andréa Romão em: http://www.casalsemvergonha.com.br/2014/03/06/agradeca-aos-babacas-que-passaram-pela-sua-vida/

domingo, 2 de março de 2014

Cine Pensamento




De vez em quando, em noites saudosistas, em horas nostálgicas, em dias chuvosos ou em momentos reflexivos, me permito assistir o nosso filme. Vou para aquele canto na memória assistir a uma sessão especial de cinema. Vou sozinho, escondido, como se fosse algo proibido.
Na tela, as projeções me fazem rir. As suas palhaçadas durante o almoço ou a expressão do seu rosto quando um filme te irritava me fazem gargalhar. Poderia dar replay nesses momentos sem parar. Saiba que, pra mim, eles são antológicos.
Mas, como todo filme, tem aquele instante em que algo dá errado e a gente fica a gritar conselhos aos protagonistas, como se fossem nos ouvir. E esse sou eu, berrando para mim mesmo e para você, mas ninguém me dá ouvidos. Quem me dera poder refazer esse roteiro.
Que revés, não? Agora, sendo o espectador dessa história, vejo cada falha. Cada detalhe que nos passou batido quando éramos os personagens da trama. Uma frase dita com entonação errada sem pedido de desculpas. Um olhar distante, sem o outro querer trazê-lo de volta. Uma ausência de diálogo. As falácias dos personagens coadjuvantes. Um abismo se formando, sem ninguém tentar impedir ou construir uma ponte que impedisse o afastamento brutal.
Esse é um daqueles longas com final surpreendente (e triste). Se estivesse acompanhado nesta sessão, com certeza veria olhares decepcionados e torcedores frustrados. É por isso que venho só para cá. Para não ter que lidar com perguntas difíceis e em tom indignado do tipo: “Mas por que eles não ficaram juntos?”. De indagações, já bastam as minhas.
Quando as luzes da sala acendem, anunciando o fim da exibição, saio e tranco a porta. Semana que vem, quem sabe, talvez eu volte. Ou no próximo mês. Ou até um novo filme entrar em cartaz. Mas, enquanto isso não acontece, “você e eu” ainda é o meu favorito.



domingo, 23 de fevereiro de 2014

Cuida de mim





Você não entende, mas eu peço abrigo. Um abrigo bem claro, bem na minha frente, que dissipe frio ou incômodo qualquer. Não entende e me olha como se passasse por mim na rua, como se a vista do horizonte fosse maior que eu, como se eu fosse uma alegoria trançada num adorno qualquer. Eu não peço esmola, eu peço abrigo afetivo de verdade. Queria mesmo é que você parasse pra perguntar como foi o meu dia. Foi bom, tô bem, eu digo. Bom e bem são sinônimos de toda crise interna que a gente não consegue afugentar, não acha?
Eu teria curiosidade em te conhecer abertamente. Te levaria prum quarto parado numa estrada qualquer pra te devorar. Ouviria as suas histórias e te pintaria nos meus escritos. Esboçaria um pouco dos teus olhos e das olheiras, que é pra te dar um ar humano, e reconheceria suas falhas no papel. Me pinta em aquarela pra me dar vida? Me tira daquele meu apartamento monótono que só faz de mim prisioneiro de alguma coisa apática, de uma vida que eu jurei pra mim mesmo que nunca viveria antes de guardar meus sonhos no baú e sair por aí vivendo o que a gente chama de vida. Tô bem, foi bom, digo quando o telefone toca. E na minha voz fica a marca dos trilhos rangendo, do peito rasgando, da carne se consumindo por dentro.
Bem e bom são sinônimos de um apocalipse pessoal.
Você não me conhece, mas eu suponho que poderíamos ser amantes. Ou amadores. Sempre achei que todo amante tivesse algo de amador e por isso as derrapadas pelo caminho. Poderíamos também ser amigos e você me contaria da tua vida com frequência pra me arrancar da realidade? Eu te mandaria postais e a gente viveria nessa espera ansiosa de receber respostas. Promete pra mim que me escreve? Descreve, me escreve no papel, me rabisca um pouco pra eu sentir que não sou imaginado no mundo. Que eu existo e tenho uma âncora feito você pra botar meu pé no chão.
Eu te confesso que tenho um porão escondido dentro de mim. Vez ou outra eu revisito pra checar se a umidade já corroeu as vigas, as dobras das portas, as frestas do assoalho. Na maioria das vezes eu espirro por conta da alergia e não tem ninguém ali me oferecer um lenço. Tudo bem, sou precavido, tenho levado o meu há anos a fio quando aprendi que a gente tem que se embalar na gente senão a coisa toda despenca. Mas olha, eu faria do meu escuro um lugar bonito pra você me visitar. Limpo tudo e deixo as coisas boas em cima dos móveis e um porta-retrato de nós dois. Não precisa vir hoje ou nem amanhã. Só vem um dia e me tira dessa cidade perdida, dessa confusão que implica em me deixar com dois cigarros na rua e uns pensamentos que cortam, me tira desse conformismo absurdo e me afunda. Me afoga, me enforca, me joga do alto de um edíficio, mas não me deixa viver essa coisa que não me deixa ver todas as coisas boas que os seus olhos castanhos contam.
Só vem um dia, larga as malas na porta, bota o pé pra dentro de casa e cuida de mim.