terça-feira, 28 de maio de 2013

Sobre a pessoa mais bonita do mundo


Eu queria a pessoa mais bonita do mundo. Queria porque queria. Porque me interessava, porque me atraía, porque tinha o sorriso mais bonito e bem espaçado que eu já tinha visto. Porque era o meu tipo perfeito na combinação de tom de pele com a cor do cabelo. Tinha a altura média ideal e parecia ser tão simpática e bonita quanto as pinturas mentais que eu faria da pessoa perfeita. Eu queria porque queria e todo o mundo mais queria. Mas em todo fim do dia, depois de passar horas vendo fotos e vendo o que a pessoa mais bonita do mundo dizia, eu chegava à conclusão de que era areia demais pro meu caminhãozinho. Até que um dia eu topei com a pessoa mais bonita do mundo.
Topei, escorreguei, quase caí e nunca me vi tão destrambelhado como nesse dia. Ela riu, me ajudou a sustentar os dois pés como base e ainda me chamou lá pra fora da festa, pra aproveitar o ar da varanda. E foi aí que eu a tive pra mim. Nuns poucos minutos de embriaguez e oportunidade, eu tive a pessoa mais bonita do mundo. Numas horas restantes de festa, eu tive a companhia dela. E foi frustrante. A pessoa mais bonita do mundo, aquela que todo mundo queria, que parecia ser o sonho de muita gente – e o meu tipo perfeito – não era nada demais. Nada demais. Era como o eco da confusão que gritava na minha cabeça. O beijo era morno, as mãos eram soltas, o abraço não combinava, os olhos se desviavam pra não encarar a falta de cumplicidade e admito que nem chegou perto daquele frio na barriga que a gente sente quando encontra alguém que tem potencial pra mexer com a gente. Frustração porque a expectativa tava tão alta e desabou com aquele encontro kamikaze. Porque eu suava pelas mãos e o meu corpo não reconheceu o dela, o nervosismo foi meio que em vão e eu passei o dia seguinte inteiro pensando sobre a verdade da situação: a pessoa mais bonita do mundo não era pra mim.
O que seria pra mim então? Essa minha busca por ela tinha me transformado num projeto de psicopata por algumas semanas. Longas sessões de stalking e de insegurança à flor da pele, a rever todos os meus conceitos de auto-imagem e de percepção sobre o tipo de interesse que eu poderia causar nela, até chegar ao pensamento clássico de que era demais pra mim. Mas deixa eu contar uma coisa pra você: tipos perfeitos não existem. E foi isso que eu percebi quando eu estive com a pessoa mais bonita do mundo. Que a gente monta um modelo de pessoa perfeita pra gente, desde a parte superficial aos mínimos detalhes de leitura e gosto musical – tem gente que até pensa no vestuário e coisas do tipo – e a gente acha que se apaixonaria fácil por alguém assim. Não só nos apaixonaríamos como também teríamos um lindo relacionamento nessa equação perfeita. Até que a gente se lembra de incluir a necessidade de química, a compatibilidade de gostos e assuntos dentro do nosso universo e fora dele, o timing e os objetivos de vida – além da visão de mundo dos dois e muito mais. Ah, quando a gente monta a equação inteira, a gente percebe variáveis que saem do nosso controle e que não podem ser supostas apenas pela aparência, pelo sorriso e pela forma com que o outro parece interessante. A pessoa mais bonita do mundo era interessante, mas não pra mim. Fazia exatamente a minha ideia de tipo perfeito, mas não era meu tipo real. E a frustração foi fruto dessa expectativa boba e mal desenhada que eu tive – e aposto que você também deve ter em relação a alguém. Nossos tipos perfeitos foram feitos pra sonhos, literaturas, preenchimento de ego e afins. O importante mesmo é o tipo real que pode passar bem longe do que a gente espera que seja.
Depois daquela noite, eu fui indagado pelos amigos sobre o porquê de não ter entrado mais em contato com a pessoa mais bonita do mundo. Do nada, a minha pequena obsessão se desfez e eu deixei de achar tanta graça assim nela. Talvez eu também não tenha sido nada demais pra ela e essas coisas acontecem. Meus amigos não entendem, mas a verdade é que agora eu tenho uma nova perspectiva do tipo de pessoa que eu quero. Eu quero alguém real, uma boa pessoa que entre na equação e que, talvez, nem complete todas as variáveis, mas que me faça sentir a pessoa mais especial do mundo. Que mexa comigo como os meus tipos perfeitos mexem em sonho, mas de verdade, de carne e osso, pra causar frio na barriga e arrepio. Alguém que pode ser o completo oposto do que a gente espera pra se apaixonar – e mesmo assim consegue fazer com que a gente se apaixone. Eu agora quero tipos reais. Deixo os tipos perfeitos pras capas de revista e pros meus personagens preferidos de filmes, deixo pro ego satisfeito e pras noites de sono. Acordar mesmo, eu quero que seja ao lado de uma boa pessoa real.


Sobre as Lembranças






As lembranças são armadilhas suaves que nos pegam pelas pernas e nos enlaçam. Dão cama, casa e comida enquanto a gente acha que reconstrói tudo aos poucos – sem saber que tudo aquilo vai desmoronar num piscar de olhos. Subtraem enquanto a gente acha que soma. E somem num instante. Deixam a gente em pó suspenso no ar. Embaçam os óculos e atrapalham a respiração. Lembranças são a marcha ré disparada sem querer no meio do engarrafamento. E a gente bate com tudo no que deveria nem encostar. Embaçam a vista e a vida. E se fazem de dissimuladas: o que era ruim desaparece e o que nem era tão bom assim ganha um peso de sobrecarga. Um sorriso de lado vira a coisa mais bonita que a gente já viu. E as histórias de corações partidos são substituídas por mal-entendidos irreais. As lembranças se misturam e se chocam. Servem de travesseiro pras noites mal dormidas. E acabam recriando cafunés que nunca existiram.
Lembranças são o resto da memória que ainda vive. Se escondem nos ralos e nos cantos escuros do corredor da casa. Se disfarçam de porta-retratos e roupas guardadas. É nelas que a gente revive o que a gente foi – e o que nunca foi também. Elas não são feitas de deixar de ser. Elas são, e nos cutucam na ferida aberta a cada novo momento. Sem alarme de incêndio pra avisar do fogo. São queimaduras de segundo grau que a gente ganha pela exposição prolongada ao passado. E nos transportam para o ponto final do início de tudo. O fim de alguma história se torna ponto de partida – e mal sabemos nós que estamos presos a um ciclo vicioso de repetições. Tanto das lembranças quanto das ações. E os fins entortam os meios. E a gente parece não lembrar direito o que aconteceu. Só se lembra de que acabou. Ou que nem chegou a existir.
Elas são de uso exclusivo aos que possuem corações fortes. São prescritas de forma a seguir uma bula de nostalgia e sofreguidão. É como colocar um doce na boca de uma criança e tirá-lo depois. Só que as crianças somos nós. E daí nos prescrevem tarjas-pretas. Lembranças podem nos levar à loucura, de fato. Mas eu espero que a nossa loucura possa ser perdoada. Porque a gente ainda não descobriu como se desfazer do doce vício de relembrar antigos diálogos e fotografias.


segunda-feira, 27 de maio de 2013

Quadrilha da vida


“João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém”. Pode ser que o seu nome não seja João, nem Teresa, nem Raimundo, nem Maria, nem Joaquim e nem Lili. Mas, provavelmente, você já foi personagem de uma história como essa. Assim como João, você já pensou em Teresa antes de dormir. Assim como Teresa, você já derramou algumas lágrimas por Raimundo. Assim como Maria, você já quis saber o que Lili tinha e você não. Assim como Joaquim, você já homenageou Lili no banho. E assim como Lili, você já esteve livre e desimpedida antes de se apaixonar por mais um João. Em suma, como todo bom ser humano, você já ficou sem par na quadrilha da vida em pelo menos uma festa junina desse mundo de encontros e desencontros.
Em sete singelos versos, Carlos Drummond de Andrade, em ''Quadrilha'', conseguiu eternizar da maneira mais simples possível a mais genuína fonte de satisfação e sofrimento desde os tempos mais remotos – essa dor que se chama ''amor''. Satisfação porque, por mais que Teresa não corresponda ao amor de João, saber que é desejada – se não trouxer uma felicidade momentânea – pelo menos infla o ego. Mesmo ego a quem o desamor de Raimundo tanto maltrata – e daí vem o sofrimento. Recuso-me a continuar explicando o amor e peço desculpas já de antemão pelo quão patético isso possa ter soado. Embora indecifrável, o amor é inerente ao homem. Explicar o amor a um homem é tão desnecessário quanto apresentar a respiração subaquática a um peixe. O amor não precisa de explicação. Mais do que isso, o amor não merece explicação. Merece apenas que abramos os braços ou viremos as costas. E aí, meus caros, depende de nós.
Por mais que Hollywood tenha o ensinado que não se escolhe quem se ama – e que você tenha acreditado porque isso soou extremamente bonito e comovente aos seus ouvidos - eu ponho as minhas dúvidas sobre as suas certezas. Um: você só se deixa encantar por alguém se se permite. Dois: você só se permite porque está ciente de todos os alentos e desalentos que isso pode trazer-lhe mais pra frente. Três: você só se envolve quando enxerga que há uma mínima possibilidade de sucesso. Quatro: sucesso não significa necessariamente casar e constituir família. E cinco: não, o que você sente pelo Robert Pattinson não é amor.
Quem me vê falando assim, com tanta propriedade, tem a mais absoluta certeza de que eu nunca derramei uma lágrima por uma mulher que fosse. Seria realmente maravilhoso se não fosse mentira – afinal, se tem uma coisa que eu tenho mais do que todos vocês, além de me foder, é dedo podre amparado por uma (In)consciência levemente masoquista. Sim, a conclusão que tiro de tudo isso é que, assim como eu, todo ser humano tem um pouco de masoquista. E de sádico também, porque, como componentes de um bom par complementar, o masô não existe sem o sádico. Na quadrilha, enquanto o sanfoneiro toca, Maria satisfaz seu masoquismo com Joaquim, que exerce seu sadismo sobre ela. E assim a tal da quadrilha da vida vai se consumando. Olha a cobra! É mentira! Olha a chuva! Já passou! Olha a decepção! Provavelmente está à sua espera na próxima esquina. Olha os amores imperfeitos! Esses não passam. Jamais passarão.

sábado, 25 de maio de 2013

Sobre o melhor amor que já tive


Você me pega pela nuca e me arrasta por cada parte do seu corpo com força e precisão. Quase me arranha com a minha própria barba usando a fricção da pele pra desenhar os nossos sinais na barriga, seios, pernas, coxas e tudo mais. Me faz pagar a língua quando eu enceno algum teatrinho dramático pra não deixar você levantar da cama: você fica se quiser e ainda diz que poderia ter levantado enquanto aproveitava a minha distração. Conto as suas pintas uma por uma com cuidado pra você não perceber a minha obsessão em calcular cada milímetro do teu corpo. Tento aproveitar que agora é tarde e daqui a pouco amanhece, você vai embora e se cria um abismo que envolve tempo e espaço entre o toque da campainha e o nosso toque de novo.
Eu tenho pressa de você e a minha ansiedade não pode ser controlada por diagnóstico nenhum. Me liga pra desafinar essa saudade com o teu tom rouco, pra melhorar o meu dia, pra me fazer dirigir com pouca atenção e ser xingado no meio do trânsito turbulento dessa cidade, me liga pra desacelerar o meu pensamento e a minha prosa que vai. Se perdendo. E não se conclui. E fica solta por aí com. Muitos pontos e fala mais um pouco que eu quero ouvir tua voz de novo, vai.
Me lembra como é bom desacreditar e ser pego de surpresa com alguma coisa boba rondando a cabeça que até os meus amigos perguntam – mas já sabem que vem de você. Já sabem que eu misturo o teu cheiro, as tuas roupas, a sua preferência por cachorros e bebês que me deixam de lado nos shoppings, cinemas, peças, parques, encontros, os filminhos água com açúcar que você adora ver escondida e faço uma bagunça danada dentro de mim. Engraçado que a gente tinha tudo pra se repelir porque você não é nem meu oposto, nem se parece comigo, nem sei dizer mesmo como é que um esbarrão podia ter sido a coisa mais doce da minha vida quando eu nem ao menos tinha provado o teu gosto.
Faz parecer que as vinte e quatro horas do meu dia passam  devagarinho e não tem botão pra avançar em você como eu bem queria fazer agora. Deixo o trabalho e parece que eu tenho sempre quinze anos de idade de novo porque você me aflige, me ataca, me espreme e tira mais de mim do que muito psicanalista com doutorado e me causa uma taquicardia que a minha boca fica seca, eu me descontrolo – mesmo que só na minha cabeça – mas não repara, tá? Repara no que você me faz de bom e de como a vida ficou boa quando você quis ficar por aqui, passeando, me fazendo sala, jogando baralho, xadrez, dominó ou dormindo em cima de mim. Repara que eu estampo na cara o que o seu uso prolongado pode causar de efeito colateral – pra bem e pra mal – e as reações adversas que me causam o excesso e a abstinência de você. Repara que pra você eu me separo em partes, das que você precisa conhecer às que a gente pode ignorar um pouco agora, e sempre te apresento o melhor de mim, servido na bandeja com um Martini e azeitona. Repara que você é o melhor amor que eu já tive e que me tem nos detalhes, nos fiapos desfiados das camisas de lã no frio, na mão suja de carvão do churrasco de domingo, nas notas fiscais guardadas e organizadas nas pastas pra me lembrar do presente do dia dos namorados que eu ainda não comprei. Repara que você me enamora e me encanta como nunca alguém me encantou nessa vida. Repara que você nem sequer existe de verdade.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Ou me cospe, ou me engole.



Me atiro num pulo ou nem subo no muro. E você, ah, você que não escolhe e acha que o tempo é seu servo, você que pensa que a eternidade existe pela espera, você que confunde a calma, calmaria e tranquilidade com indecisão, medo, dúvida que nunca é sanada. Você precisa parar ou cair de vez, sem interferências cósmicas, antropológicas, e ambientais de força maior que te façam parar no meio do caminho. Você, que não é como eu, precisa entender que não é de açúcar pra evitar andar na chuva, e se for, é melhor que se desmanche de uma vez só, sem essa coisa de piedade, bondade, cautela, essas coisas que atropelam a gente e deixam a gente estirado no meio da rua, sangrando, agonizando, morrendo aos poucos sem nunca morrer de vez. Você precisa deixar de esperar, de esperar por socorro, apoio, certeza e se decidir.

Você, como diria Cazuza, vê se ao menos me engole, mas não me mastiga. Você precisa reaprender a andar nas ruas, avenidas, prédios e elevadores sem parar em cada esquina ou andar pra se certificar que as coisas vão indo. Você que é muito comedida e nunca teve nenhum arranhão de bicicleta, patinete, moto, amor ou uma dessas coisas todas que machucam, saram, cicatrizam e bola pra frente. Justo você que tá aí e não se mexe, melhor ficar parada, imóvel, estátua, fria de si mesma, se a ideia for desistir no meio do caminho. Mas escolhe ficar parada. Escolhe, decide, me conta, eu respeito, você vai entender, eu também vou, e se isso for te fazer feliz ou me fazer feliz ou fazer de nós dois infelizes que tomaram as decisões erradas, tudo bem. Pelo menos tomaram. Decidiram-se. 8 ou 80 e não tem outra numeração pra você que é sempre metade do que podia ser.
Você que é o revés dos meus riscos e ainda assim é um risco que ainda não entendeu isso, você que simpatiza com a prolixidade das reticências sem ter consciência de que esperar demais pode criar bolor em mim, em você, na gente, nos outros, nas histórias e em tudo mais que não se deixa levar. Você, é, você mesma, que tá se debruçando nos braços sem o peso de preocupações, sem o peso de ter que se decidir e acaba deixando o destino, sorte, tarot, búzios e astros decidirem por você. Você que podia me ter, mas não tem por muito pouco, por muito perto, por não ter cruzado a linha em tempo hábil, por ter deixado a decisão de lado ou por nunca ter se decidido. Você que nunca sabe o que fazer e nem percebe que só perde tempo dinheiro beijos suspiros felicidade amor e todas essas coisas que parecem uma coisa só quando eu não uso vírgulas pra respirar. Você que podia me deixar sem fôlego, mas não deixa porque não é nem um pouco igual a mim que sou 8 ou 80. Ah, você…Se atira logo num pulo ou nem sobe no muro. Ou me cospe, ou me engole.


quinta-feira, 16 de maio de 2013

Sobre aquele sentimento de Saudade






Mais uma vez ele viu o relógio mudar rapidamente de 6 para 7 os minutos da quarta hora da madrugada. Apesar da quase rotina, esse hábito ainda causava um certo desconforto; parecia haver hora certa para lembrar dela. Balbuciou o palavrão de sempre, estalou os dedos e procurou os óculos no escuro. Já previa a dor nos olhos antes mesmo de acender a luz, então decidiu descer a escada no breu mesmo. Abriu metade da janela, observou a chuva por alguns minutos, lembrou das noites chuvosas ao lado dela, lembrou do vidro embaçado e da música suave das gotas atingindo-o, lembrou do edredom roxo ou violeta ou púrpura – nunca soube qual a verdadeira identidade cromática do negócio e também não levou o assunto à ela – e do cachorro dormindo embaixo da cama. Lembrou dela, do sono dela, da maneira como os olhos dela se apertavam quando ela dormia, das asas redondas do nariz, dos lábios finos convidando-o para um beijo. Lembrou do cheiro da respiração dela e respirou profundamente, como que querendo encontrar tal cheiro no ar. Falhou.
Foi acordado do sonho-acordado por uma distante sirene de polícia, andou lentamente até o fogão e aqueceu uma medida de leite. Enquanto aguardava, reparou na quase dúzia de folhas de caderno escritas e rasuradas e espalhadas na mesa numa ordem que somente ele entendia. E nessas folhas, palavras que somente ela entenderia.
Sonhou de novo, e dessa vez com os vários bilhetes que escondeu pelo quarto dela, bilhetes recheados de pequenas juras e promessas e micro-elogios que arrancariam dela aquele sorriso que só ele conhecia, bilhetes assinados pela metade, que mostravam o quão inteiro ele era com a metade dela. Acordou novamente, dessa vez com o cheiro de leite fervendo, xingou a vaca, disfarçou muito mal um sorriso, terminou de preparar o capuccino e aqueceu a garganta com goles curtos. Era normal esquecer do mundo quando se lembrava dela. Era comum.                         
Largou a xícara na mesa, apagou a luz e, antes de voltar à cama, viu a luz amarela e deprimida de um poste atravessar a janela e repousar na cadeira ao lado. Como previsto, sentiu o costumeiro aperto no peito e também a solidão tocar-lhe os ombros. Tudo naquela casa lembrava dois, à dois, os dois, mesmo sem nunca ter existido dois naquele espaço. Repare bem: naquele espaço. A cadeira vazia servindo de repouso para o violão, o número de talheres e pratos e copos, a mesa redonda e pequena, o box do banheiro, a cama de solteiro (para dormirem mais próximos). Sentiu o chão gelado abaixo dos pés e desejou os pés dela colados nos dele. Voltou pra cama, olhou a foto dela na tela do celular, rezou por ela e reclamou consigo mesmo, com seu próprio deus, sobre as lágrimas que se acumulavam nos cantos dos olhos contra sua vontade. Alguns minutos depois da quarta hora da madrugada, ele tirou os óculos e os deixou no chão mesmo; ela não estaria ali para pisar neles meio que por engano. E como esperado, não dormiu.

sábado, 11 de maio de 2013

Se você não me quiser




Se você não me quiser, reserva o tempo e as precauções pra outra pessoa. Me deixa meio quieto no meu canto e pára de puxar muito assunto assim, como se você se importasse mais do que o normal, como se você tivesse que me ver bem de qualquer forma por conta de algum interesse romântico que te deixasse extremamente triste e vulnerável se eu também estivesse. Deixa que eu me refaço sozinho sem riscos de má interpretação. Deixa que eu prefiro ficar num canto ouvindo toda a discografia de Djavan, pensando nas formas de me trancar no quarto por dias sem ninguém encher o saco e tudo mais. Deixa que eu vivo nessa minha de ser sozinho e vou indo, que é bem melhor do que achar que eu tenho a sua companhia.
Se você não me quiser, esquece que a nossa discografia combina tanto e não deixa isso transparecer a toda hora. Não sorri demais e nem fala de mim pras suas amigas. Não diz que eu sou bonito e que tem tanta gente lá fora me perdendo por entre os dedos porque não consegue me ver do jeito que você vê - quando, no fim das contas, você acaba sendo só mais uma que tá lá fora me perdendo também por entre os dedos - mas você me vê e isso deve ser pior ainda pra mim. Friendzone de romance que podia dar certo machuca mais.
Se você não me quiser, é melhor parar de mexer comigo. De dizer que se lembrou de mim quando nem eu mesmo me lembraria. De brincar de ciranda comigo e com meus olhos. De dizer que tá aqui pra sempre e deitar no meu colo sem tirar as mãos da minha coxa. É melhor deixar bem claro que a gente tá procurando no outro alguém diferente – ou até tá procurando a mesma pessoa, mas pra fins diferentes. E o fim é sempre aquela bosta confusa que constrange quando fica claro.
Se você não me quiser, pára de dizer que eu sou especial. Minha mãe me diz que eu sou bonito, meu pai me chama de responsável, os amigos me acham legal, mas especial eu só sou pra você mesmo (e pro meu cachorro também). E isso acaba fazendo com que eu me sinta especial sempre que você me dá as mãos e diz: ''vamos lá, você pode''. Eu posso? Então me diz que eu posso e que você quer. Diz que eu posso mesmo, desse jeito, agora.
Se você não me quiser, ah, diz que não quer. Diz que os beijos roubados foram bobeira e que a sua agenda só tinha lugar pra mim porque você tava carente e precisava me ver por isso. Diz que os meus amigos são uns paspalhos e que gostaram à toa de você. Diz que eu não tenho motivo pra ficar preocupado porque alguém vai te deixar em casa e dormir agarrado com você de uma forma melhor do que a que eu faço. Se você não me quiser, não me quebra inteiro, não permita que eu me entregue por completo. Porque eu não sei descer ladeira com o freio engatado. E daí, um dia, você vai embora e eu vou me perguntar, sem que eu entenda nada, já que você parecia tanto me querer…


sexta-feira, 10 de maio de 2013

TUDO PASSA





É tão estranho quando passa, quando aquele sentimento de que eu nunca ia achar alguém igual a você passa. Quando aquela agonia nada bonita no peito, que até chega a inspirar ou a despertar sérios motivos pra terapia, passa. Porque na troca desse sentimento meio triste, meio sozinho, de gostar de quem não gosta da gente, de sentir por quem recusou claramente ou por acidente, na troca disso tudo e no meio do turbilhão, a coisa pára. Fica um buraco. Um buraco com tampa e um vazio diferente. Um vazio novo que a gente ainda não se acostumou, que tinha alguma coisa que preenchia antes e agora não tem, mas também não dói. É o vazio do que passou. E do nada eu percebo que você já não me incomoda tanto assim, que eu consigo acordar e ver ou ouvir qualquer coisa sobre você sem ter um aperto, sem me sentir perdido, sem ter nó na garganta e uma crise de alergia pra disfarçar as mãos suando e o efeito da sua existência. Do nada passa e é tão estranho quando passa…
Eu achei que você nunca fosse passar. A gente sempre acha que vai demorar muito, ou que a atenção nunca mais vai desviar o foco de você, ou que a gente nunca vai conseguir mais engolir a saliva que fica presa na garganta em todas as vezes que você aparece com alguém, mas passa. Daí fica a saudade. Sabe aquela saudade gostosa que persiste, que a gente usa pra tentar sentir de novo enquanto faz todos aqueles testes de reação pra ver se você ainda incomoda? Saudade estranha essa. Nem é boa, nem é ruim, é persistente. Acho que é pra dar algum conforto nesse nó no peito que se desfez.



E há os que não conseguem desapegar dessa dor, desse sofrer que ainda não passou e guarda isso pra sempre. Porque, se não bastasse perder – ou nem ter ganhado – você, agora eu também perco o nó que você me deu. Como se isso fosse uma companhia compensatória. Amar é sofrer demais pra quem precisa preencher algum vazio qualquer, mesmo que as formas não se encaixem e sempre sobre mais vazio dos outros lados. O vazio transborda. E essa gente um dia vai aprender que precisa deixar passar. Aprende também que, quando passa, a gente tem que ser forte também pra reconhecer que já foi, bola pra frente. Fazer uma história nova quando a gente esbarrar por alguém que vai ficar ou passar também. Porque se a gente se apega… Ah, acaba num ciclo infinito. Dor do que não passou trocada por saudades de sentir dor. Tem gente que acha isso melhor do que cantar Socorro e imitar o Arnaldo Antunes. Eu prefiro acreditar que não.



Mas agora, falando especificamente de você, de você ter passado, e de eu nem ter percebido a despedida, foi um estranho-bom. Foi bom porque a gente sempre acha que vai precisar de alguém pra ocupar o lugar e nem sempre é assim. Um dia desses, a gente acorda e pronto, você passou. Um dia desses a gente nem se lembra mais do seu telefone. Dia desses a gente se esquece até das suas manias e gírias e acaba arrumando o armário sem dó nem piedade. Ah, tudo passa. Você passou e muita gente ainda vai passar. Eu mesmo já devo ter passado pra tanta gente e pra tanta gente que ainda nem esbarrou comigo ainda. Você passou e eu tô deixando você ir de vez. Sem me agarrar ao falso conforto da saudade que fica. Vai, pode ir, foi bom enquanto durou, mas eu já não preciso mais. Passou, passado. E fica até engraçado o jeito que a gente se pega vendo que o apego não tinha o menor fundamento e que tudo que a gente fez foi meio imbecil. Mas não foi em vão. Eu precisava ter feito de tudo, ter ouvido de tudo, ter comido de tudo, ter chorado de tudo, ter rido de tudo e mais um pouco pra você passar.


Pra essa gente que ainda não passou, espera um pouco. Um dia desses a coisa muda. Abre um vinho e põe pra tocar alguma música, de preferência alguma boa. Canta e bebe comigo, no volume que achar necessário. “Dentre as flores, você era a mais bela, minha rosa amarela, que desfolhou, perdeu a cor”. E quando passar, deixa passar tudo de vez sem fechar a porta no meio do caminho. Acredita em mim, um dia passa. Comigo passou.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Carta pra você não se esquecer de mim




Eu queria. Na verdade eu quero. Sempre comecei as coisas com o tempo meio errado, errando conjugação, errando passo na frente de passo e esbarrando em tudo e quebrando as coisas e colocando continuação pra me enrolar mais um pouco que acabava nunca terminando a frase, nunca falando o que importava. Então dessa vez eu quero. Quero cuspir na tua cara alguma acidez desesperada porque eu grito, grito aqui na rua, grito aqui na chuva, grito até praia e você desapercebe tudo isso como se nem grunhido ou gemido você ouvisse de mim.
É independente. Eu seguro e desvio a cara e deixo de ouvir qualquer som que contenha as notas de um violino só porque me indicam você. Não evito porque me lembram de você, ou porque estão impregnadas de você até o pescoço e seria só mais um artifício pra eu jogar a culpa nas coisas todas e tentar te descartar como eu faço com as coisas velhas inúteis paradas guardadas numa gaveta. Esse amor todo, esse amor que já foi em ti e ficou pra mim, esse amor que perdeu a hora do trem e vaga na estação esperando tudo voltar a funcionar sem saber que o dia seguinte é feriado, esse amor que dói mais do que se não fosse amor e fosse solidão. Eu quero dessa vez. Só que parece que esse amor me conduz numa dança que eu não aprendi e isso torna tudo mais difícil porque não prevejo passo, não prevejo tempo e eu só tenho vontade de girar e girar e girar e daí eu fico tonto por você e caio. De amores. Não evito e nem é porque eu não posso, não é porque é mais forte que eu, é porque eu quero e te desquero ao mesmo tempo. Não evito e admito: eu que sou impregnado de você até o pescoço e rezo, e torço, e esqueço de pedir socorro porque eu quero me afundar mais um pouco.

Só que não adianta nada, não adianta esse sentimento bonito, essa mão apertando o lado esquerdo do peito, esmagando alguma coisa lá dentro que eu nem sabia que tinha até sentir pulsando, até sentir ardendo e me fazendo revirar os olhos quando você não me segurou mais e foi andar na roda gigante pra ver o ponto mais alto da cidade com ele. Não adianta que eu não queira e bata os pés e peça pra ser transportado daqui prum mundo mágico, daqueles de Oz, só pra ter alguma coisa grandiosa que me faça sair dessa lama toda, dessa areia movediça que me impregna de você. E diz pra mim onde eu encontro a tal borracha branca, onde eu arranco a folha, onde eu tomo o remédio certo pra apagar você como você fez comigo. Eu sou bom e bom é uma boa resposta, mas não pra esse seu Amor-Clementine-Summer Finn.
Então se lembra de mim só pra me dar um prazer decorativo, me faz de quadro na parede da memória e se lembra de algum momento bom que vá te fazer sentir minha falta. Se lembra de mim e sente o meu gosto quando não for eu, se sente incomodada por ter ido em frente e volta atrás por mim. Se lembra de mim e se esganiça achando que eu tô feliz enquanto eu continuo batendo o pé e sendo mesquinho por um amor que já não é mais meu – e que eu nem sei mesmo se um dia foi amor ou capricho. Se lembra de mim e cospe na minha cara, me marca os dedos no pescoço, me sufoca até me faltar o ar completamente, mas me invade, me afunda logo nessa areia movediça, me tira desse mundo todo em que eu sou todo você e que você tá impregnada até na minha maneira de falar.
Me ensina a ser feliz ou se lembra de mim.
Se lembra de mim e conta que tá infeliz e que os tais castelos de areia caem todo dia e diz que também quer. Diz que quer agora e que nunca acertou o verbo, a conjugação, o adjetivo e a certeza quando me disse que aquele amor fraco acabou e acabou de vez porque tava certo de que queria ser feliz sem mim.


terça-feira, 23 de abril de 2013

Os amores de verdade são mais bonitos.



Mais fácil imaginar o que nunca foi do que o que teve laço marcado e contado em retratos, álbuns e um punhado de lembranças. Mais fácil pressupor que os amores que não foram seriam mais fortes, mais duradouros e, quem sabe, mais amados. Mais fácil viver uma vida de “e se…” quando os amores que já foram sofrem de um abandono romântico gradual. É que a gente não é justo na memória e vai sempre achar que os amores que nunca aconteceram foram os mais bonitos.
Um misto de imaginação e expectativa gostosa faz com que a gente projete naquela possibilidade de amor distante um tipo de afeto memorável. Pros amores que nunca existiram, a gente ainda tem cama, tem casa, quarto e espaço. Tem pedido de desculpas e um imaginário que deixa a gente bobo pensando ainda que podia ter sido o grande amor das nossas vidas. Pros amigos, a gente sempre seleciona as melhores histórias de amores que sumiram de um dia pro outro, de alguém que a gente amou à primeira vista ou de um daqueles dias que nunca viraram dois. A nossa recordação afetiva é meio injusta com os amores que ficaram.
Os que ficaram, viveram e provaram que mereciam espaço tiveram que aguentar a convivência, nem sempre pacífica e razoável, de uma companhia escolhida e acolhida por pura e própria vontade – e talvez por amor. Ficaram, bateram o pé e tiveram seus dias de luta e de glória com ''bom dia'' e ''boa noite'', com batida de porta e gritaria, com choro ou sorrisinho bobo, com ''adeus'' e ''até um dia desses''. O que a gente não enxerga é que os amores reais também são bonitos. E por terem sido reais e terem trazido pro nosso dia-a-dia um pouco daquele sentimento que a gente sempre esperou utilizar, dar e receber dos amores do ''talvez'', eles merecem da gente uma beleza para além da imaginação. Papo de romantismo real, sem o aspecto ilusório que a gente cria sempre que começa a se apaixonar por alguém ou pensa em como teria sido construir alguma coisa com alguém que nem fez questão de ficar – ou não ficou porque nunca existiu de verdade.
Os amores de verdade são mais bonitos porque dariam filmes, novelas, histórias de cinema que as pessoas não costumam contar. Eles fogem do senso comum e vivem de acordo com cada par que se encontra por aí. São mais bonitos porque têm a sua forma de expressar o que sentem e o que não sentem e são independentes da imaginação para tirar um sorriso da gente ou pra fazer um dia feliz. Amores reais não precisam ser sonhos pra fazer a gente sonhar – e você nem precisa fechar os olhos pra tê-los. Eles tão ali e se responsabilizam por tudo o que acontecer a dois. Pagam o preço e bancam o terreno deles. E vivem. E escrevem palavras na nossa pele que significam mais do que possíveis histórias que a maioria de nós criaria com algum tempo ocioso e com alguma pessoa que a gente nem chegou a conhecer de verdade. Esses amores não são scripts rodados nem clichés literários. Eles se apresentam nus, com estrias, celulites e luz acesa. Assim, de pronto, de choque, com toda a verdade bonita e feia que poderiam ter.
Se você pensar bem, os seus amores reais renderam as melhores coisas. As melhores lembranças. Muitas. Muito mais do que qualquer outro amor que você não tenha vivido. Renderam até dores – mas dores reais, com motivos, razões e discussões que existiram de verdade. E, querendo ou não, acho que eles merecem o seu lugar preferido na memória, ainda que a gente precise de imaginação pra deixar as coisas menos fora da rotina e mais interessantes. Como disse um grande poeta: ''amores serão sempre amáveis''. Mas os amores reais serão sempre as pessoas que resolveram amar a gente de verdade, sem precisar imaginar como teria sido.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Até Logo.






Eu vou sentir sua falta. Aliás, eu já sinto. Sinto que eu perdi a minha melhor chance de ser feliz. E isso não é apenas um estado depressivo que irá se agravar e se repelir automaticamente depois de algum tempo. É conformismo; Uma constatação das brabas, daquelas verdades inconvenientes que são pregadas na parede do quarto feito papel de parede que a gente não escolheu e que nem adianta tirar porque a pintura vai descascar e esfarelar tudo, vai sujar o chão, e as marcas de que um dia eu te perdi vão continuar ali, nas ruínas de um quarto velho e torto no segundo andar de uma casa desalmada qualquer. 


''Adeus''serve pra a gente reconhecer na alma de quem vai embora alguma história da qual tenhamos participado. Os traços do outro vão sempre contar um pouco da gente, principalmente quando a gente ajuda a ‘’carregar as caixas’’, com o coração na mão.  Eu sei que isso também significou muito pra você, que você está com o coração dilacerado, assim como eu. Agora você vai seguir a vida quebrada, e eu também. Cada caco reunido com o pouco de força que a gente ainda tinha. Você foi a melhor coisa que me aconteceu em muito tempo – e só Deus sabe como eu amei você. Do meu jeito, mas amei. Com pretensões, com modos de indicativo e imperativo, sem modo algum, com gentileza e cadeiras puxadas pra você cair diretamente nos meus braços. Com Poesia e Prosa, com sacanagem, com sonhos, com desejo... Amor não se acaba, pequena. Amor fica intacto no espaço e no tempo. A gente é que muda e faz dele fantasia, abstração...ou simplesmente temos que sufocá-lo...






quarta-feira, 10 de abril de 2013

Sobre Mulheres Bonitas.



A mulher bonita, especificamente, tem um desafio redobrado. Ela precisa se desvencilhar à todo o momento do fascínio pela própria imagem e as vantagens que isso trouxe ao longo de sua vida. Com exceção daquelas que tiveram pais sensatos (raro). É chato falar disso, afinal soa preconceituoso e generalista, mas o que adianta negar um fato presente. A mulher bonita carrega desde cedo um trunfo poderoso, como se tivesse um diamante brilhante em seu rosto. É a maior moeda de barganha que um homem almeja alcançar e as amigas invejam ter. Por mais que não gostemos de admitir nós fazemos de tudo para ter por perto alguém mais bonito do que feio. Somos mais solícitos,  prestativos e gentis com um rostinho harmonioso. Parece até instintivo.
O ponto é que a mulher bonita adquiriu poderes sociais imbatíveis. Ela usa o seu ''capital erótico'' com maestria para chegar onde quer. Sua mente está habituada aos tapetes vermelhos estendidos aos seus desejos. Aí mora o perigo: ela fica alucinada por tanto tempo que não sabe lidar com contratempos como as outras pessoas. Semelhante à pessoa rica de berço que precisa fazer a vida por si mesma na vida adulta. Os relacionamentos amorosos são um desafio especial para essa garota acostumada a conquistar (quase) tudo de imediato. A paciência é curta e o gênio dela é mais impositivo que a média. Não é à toa que acaba andando com um ar esnobe. Nesse caso, as bonitas simpáticas ganham disparado. Na hora de negociar uma decisão a mulher bonita tem mais dificuldade em ceder, mal habituada que está por ter seus gostos sempre atendidos. Afinal,  quem resiste aos seus lindos olhos piscando feito estrelas radiantes, seu lindo sorriso, sua pele branca como a neve e aquele corpo fantástico? Talvez os alemães nem se importem com isso, lá isso é farto. 
Mas, imagine como deve ser para uma pessoa que andava de Ferrari dirigir um carro velho caindo aos pedaços? Se não tiver humildade e bom senso a mulher bonita pode fantasiar facilidades em cada passo que dá até o fim da vida. Elas são as mais chatas quando são rejeitadas por um homem que se cansou de atender aos seus caprichos. A mais remota hipótese de rejeição a expõe aos medos (até então desconhecidos) que as outras pessoas já se acostumaram a passar. Mulher feia ou mediana já leva em consideração a chance de tomar um toco, ser deixada de lado ou trocada, mas a bonita acha que tem a chave-mestra que abre todas as portas e que pode passar por cima de qualquer pessoa, que pode pisar nos sentimentos de quem ela quiser e na hora que bem entender. Grande engano, ninguém é unânime. Às vezes a mulher bonita subestima certos cuidados e gentilezas sutis que só quem tem que se esforçar pela inteligência, competência e caráter tem que usar. Lógico que isso não é exclusivo de mulher feia. Sei que vai ter muito comentário de mulher bonita dizendo que é educada, generosa  meiga, inteligente, humana e tudo mais. Bem, passem os telefones, pois eu conheço muitos caras, inclusive eu, que vão ficar felizes em conhecer vocês. São exceções, então não se ofendam com o texto. 
Moças, lembrem das amigas bonitas e metidas à besta que nunca conseguem ficar em paz num relacionamento. Analise com calma qual a razão dos problemas delas e perceba que estão sempre numa luta de braço com os namorados e pretendentes. Com o tempo os caras (que costumam ser bonitões mais ou menos arrogantes) percebem que já pescaram o peixão e até se acostumaram com a beleza que deixou de ser um trunfo. Quando a relação vai se aprofundar não dá para levar do mesmo jeito e se ela for insuportável e briguenta o fim é certo. Portanto, querida bonitinha do meu coração, gostaria de deixar um alerta: O TEMPO VAI PASSAR, o peito vai cair, as plásticas não vão salvar e a única coisa que vai restar para encantar alguém será sua personalidade e seu caráter, se você tiver. Não espere ficar velha para cair do cavalo e perceber que O MUNDO NÃO GIRA EM TORNO DO SEU UMBIGO CHARMOSO,  pelo seu bem e do resto do mundo!

terça-feira, 9 de abril de 2013

Sobre a (maldita) friend zone





Todo mundo passa por aquele momento na vida em que cai na Friend zone. A falta de demonstração clara da atração física junto com a falta de confiança para ter uma iniciativa leva a condições pouco favoráveis de aproximação. Você se vê meio como um estrategista que não sabe bem como se aproximar e ganhar o outro num jogo de conquista e daí surge uma brecha: você pensa em se tornar amigo ou ter uma relação inofensiva mais próxima com a pessoa para poder ter essa tal aproximação e, quem sabe, conseguir o que tanto quer. O problema e a razão da tal da friend zone é justamente esse: uma vez dentro, raramente se consegue escapar. O outro monta uma imagem inofensiva e sem o apelo sexual necessário para que a atração se desenvolva fora do ambiente de amizade.
Para quem vive a friend zone fica o dilema: arriscar agora e talvez conseguir transformar a tal amizade ou deixar pra lá e rezar para um dia conseguir sair dessa? E a resposta é clara: deveria ter investido desde o início no interesse romântico como alguém que sente atração sexual e/ou sentimental pelo outro sem esse mimimi de amizade pensando no que pode vir a acontecer. Mas, e quem coloca alguém na friend zone? Quais seriam os motivos que levam a isso? Seria intencional ou proposital? Como já fui, até um dia desses (acho que não sou mais, acho), um mestre Jedai em entrar na Friend Zone, analisei todos os erros, meus ou de casos que vi, e todos os fatos sobre essa fossa. A seguir, eu listo 7 motivos pelos quais você (e eu) foi colocado numa friend zone:
1) Não existe o mínimo de atração física. Talvez a pessoa já saiba dos seus interesses e apenas finja que não sabe para não ter que ser grosseira. Você é legal, bacana, faz o papel de namorado(a), mas isso não influencia na atração que o outro sente. Se não rolar o mínimo de atração – e aqui entra o teste do álcool – você está automaticamente na friend zone. É o clássico “não faz meu tipo”. É o mais comum dos casos de Friend Zone.

2) Tem gente que gosta de manter a auto-estima em alta e nada melhor do que um capacho ao lado cumprindo esse papel. Os caçadores de auto-estima são aqueles que aparentemente querem algo com você e alimentam as investidas com comportamento ambíguo, mas na verdade estão te cozinhando para ter sempre alguém que elogie e faça coisas por eles. E a esperança de quem sofre com esse tipo é a de que, uma hora, eles estarão disponíveis, terminarão o namoro, vão precisar de um ombro amigo, entre outras coisas. (Esse tipo de friend zone me atormentou muito. Fui muito besta, tenho que admitir.)
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3) Aprenda: existem pessoas que realmente não sabem dizer ''não''. São aquelas que vão dando corda porque não sabem cortar a situação de um jeito não-traumático ou grosseiro. Geralmente, são infantis ou têm medo de encarar as situações de frente a acabam envolvendo o sujeito que caiu na friend zone de forma a parecer que é recíproco. E também pode ser o velho: boa demais, legal demais, bacana demais. ''Demais pra mim''. Não no sentido de boa demais pra mim, mas no sentido de “certa demais pra mim que até enjoa”. E daí dá-lhe friend zone. Pra mim, isso acontece mais por culpa de quem coloca o outro na friend zone do que de quem é colocado. É aquele velho caso, por exemplo, de garotas que dizem querer um cara romântico e inteligente e blá blá blá e quando o encontram preferem ter ele como amigo e ficar com aquele cara tapado  e machista porém musculoso, bonito ou rico (ou a soma dessas coisas). Obs: Leiam esse texto: http://northonferreira.blogspot.com.br/2012/12/sobre-realidade-envolvendo-mulheres-e.html







4) Te falta uma certa agressividade e atitude. É aquele tipo de friend zone que tem cura, mas que depende da forma com que você vai virar o jogo. Se ficar nessa de amizade ouvindo sobre os fracassos amorosos e sobre como aquela outra pessoa é especial e blá, blá, blá…A tendência é que você permaneça no calabouço eterno da indiferença. Às vezes a gente até acha que poderia rolar alguma coisa, mas a outra pessoa não age mais claramente, daí a gente chega à conclusão de que não vale a pena.
5) Garotas: nós, homens,somos tapados. Se quer algo com a gente, você tem que ser femininamente mulher. Parece redundante, mas não é. Muitas mulheres acabam se tornando aquele nosso brotherzão que a gente chama pra jogar videogame e falar de outras mulheres. Aquele tipo de amiga que a gente acaba esquecendo que também é mulher. Esse é o caminho da morte sexual. A gente pode até ter vontade de te comer no início, mas a partir do momento em que chamarmos vocês com o sufixo “ão” no final, a coisa morreu. 
6) Todo mundo gosta de um fucking friend (''P.A.'' ou ''B.A.'', ''amizade colorida'', etc). Mas então porque não aproveitam a friend zone pra isso? Porque só existe uma coisa mais forte do que a atração sexual: se a gente gosta de alguém, automaticamente os outros que chegarem com um papinho amigável sem muita autoridade vão parar na friend zone. E, geralmente, é daquelas friend zones bem frias que ligam pra pedir conselho e contar quando rola uma decepção. Tão brochante quanto o próximo tipo.
7) Muitas vezes (na maioria das vezes) a friend zone não é intencional. Rolou aquele interesse e tal, mas parece que você preferiu ir por um caminho mais seguro. Você descarta a imprevisibilidade e aposta na escada dos campeões. A gente brocha. Isso serve tanto pra homem quanto pra mulher. A gente dá uma bela brochada quando a pessoa que parecia ter uma sincronia maneira com a gente começa a perguntar sobre ex, começa a fazer amizade e vai abrindo automaticamente as portas da friend zone. A culpa não foi nossa: você entrou sozinho nessa. (essa é realmente a mais brochante.)

8) Vez ou outra aparece uma louca dizendo que te ama e que quer namorar com você, mas, por falta de sexo e por carência, ela te coloca na friend zone, porque você mora longe, e vai dar pro primeiro cara que aparecer. Nesses casos, é bom sempre estar com um pé atrás. Se uma mulher vem com tanta sede ao pote, diz que te quer muito, que te ama e faz mil promessa e planos, desconfie. Vá em frente, mas não aposte todas as fichas nesse jogo e não se entregue tão facilmente. Só assim você não é destroçado. E, principalmente, não dê muito papo, não converse muito, senão ela vai ter alguma desculpa pra dizer ''somos só bons amigos''.
O que se leva de lição: Construir uma relação de intimidade é bem diferente de virar melhor amigo do outro. A relação de amizade acaba matando aquela coisa bacana que existe entre homem e mulher e faz com que o outro não só te veja realmente como um ser inanimado que não vai ser levado pra cama no final da sexta-feira, como também você mesmo vai comprar a sua credencial vip pra friend zone. Resumindo: Se você tem segundas intenções com uma pessoa não vire amigo dela. Suas ações têm que estar no viés sexual, no viés da conquista, amorosa ou ''carnal'', do outro. Só pense em ficar amigo dessa pessoa se os planos não derem certo, se não houver esperança ou se você conseguir conquistá-la.

Fiz uma frase interessante sobre esse assunto: 
 Mal sabia Bentinho que o seu erro foi aceitar os fatos, ser capacho dos olhos de capitú, e assim entrar numa fria, da qual nunca vi ninguém sair, a desastrosa ''friend zone''.






                                            OBS: Nem sempre é impossível sair da Friend Zone




segunda-feira, 8 de abril de 2013

''Porque hoje esse texto sou eu.''


Talvez a verdadeira intimidade eu só tenha buscado com as palavras, e tenha me entupido delas no momento em que poderia estar aprendendo alguma coisa com alguém. (Faço um muro de palavras entre mim e as pessoas. Sou autoexplicativo só pra confundir.)  Talvez eu tenha nascido para uma vida desapaixonada e culta. Talvez eu nunca tenha olhado verdadeiramente o outro, e só tenha visto o texto pronto que criei pra ele. Talvez eu não conheça o que julgava conhecer. E isso me entupiu de certezas que eu não soube abandonar ao longo do caminho. 

Uso palavras para não sofrer, para plagiar uma dor, pra fingir que sou leve e que está tudo bem. Uso palavras pra falar de uma chuva que talvez eu não conheça porque não me permiti ficar encharcado dela e ela virou a metáfora de um relacionamento, o que pode ser tristemente poético.  Talvez eu só tenha sentido saudade pra falar de outras coisas. Pra usar a palavra "saudade" mesmo, que eu adoro. Acho que estou muito cansado. Falei demais das coisas e , no entanto, não toquei verdadeiramente em nada. Observei e descrevi, cheio de filtros semânticos. Dentro da minha limitação eu interpretei o Universo para que eu coubesse nele, em mim. E alienei as pessoas dentro de conceitos, e arranjei um sentimento pra cada coisa e pensei que, assim, tudo estaria em ordem, sob controle. Eu que me julgava não julgador, me considerava livre, agora tenho que empurrar as grades dessa prisão de certezas que criei pra mim. Sem poder culpar ninguém. Usando um discurso de alguém que não quer magoar o outro pra descobrir que no fundo só me importei comigo mesmo e com os meus medos. Não deixei que o outro experimentasse o que havia de melhor ou de pior em mim. Não deixei que ele escolhesse. Mantive o muro de palavras e o meu discurso pronto pra continuar a salvo do outro lado. Eu que sempre falei de pontes... 


Talvez eu seja uma farsa. Talvez eu seja virtualmente inacessível. Alguém que se entope de adjetivos pra entender as coisas e dizer que não se preocupa em entender nada. Eu que sempre falei de amor, não amei o outro em toda a dimensão da pessoa que ele é. Talvez eu tenha me preocupado mais com as vírgulas que não usei nas cartas de amor que escrevi, que com as pessoas que as receberam e que se julgaram amadas. Talvez eu só tenha dançado pra fingir que gostava de música. Talvez eu só tenha bebido pra fazer parte de um círculo social. Talvez eu só tenha aceitado certas coisas pra poder ser chamado de amigo, e usei levianamente a palavra amizade.Talvez eu tenha me apaixonado diversas vezes pra fazer parte do círculo de pessoas que sorriem diferente porque estão amando, e sofri as carências que intercalam as paixões como se fossem reais. Talvez eu tenha rompido relações pra escrever cartas de despedida e mostrar como eu dominava a dor ao escrevê-las. Talvez eu só tenha experimentado as relações dentro da literatura. 


Acho que estou realmente cansado. Falei demais sobre tudo e continuo no escuro. E a minha recusa em tocar nas coisas me impede de sair tateando em direção à luz. E mais uma vez eu uso palavras pra tentar me defender de algo, de mim. (Talvez eu precise parar de ler Clarice Lispector e Gabito Nunes, e parar de escrever, e de amar, e de me iludir...). Talvez eu devesse escrever uma carta em branco pra dizer que quero silenciar: que se o silêncio ainda estiver esperando por mim, eu aceito. Preciso esquecer as palavras, preciso me despedir delas para começar a experimentar a vida com honestidade. Talvez silenciando eu consiga ser mais honesto com você, comigo. Eu que precisei escrever tanto pra dizer isto: que preciso silenciar. Talvez eu só tenha escrito isso tudo pra conseguir chorar... E usar a palavra "talvez" pode ser o início do abandono de tantas certezas; o início do uso mais corriqueiro da frase “eu não sei".



sábado, 30 de março de 2013

Querido Ruy,



Ela não diz e se afoga na saliva embaralhada de letrinhas que desce pela garganta. Ela não diz e tem azia porque o estômago queima com cada frase que gostaria de ter cuspido (em você) pra evitar a acidez. Ela não diz e você continua caminhando ao lado dela, como se o mundo fosse perfeito e como se ela não se destruísse por dentro, não se abalasse com as formas erradas com que as coisas vão indo e escondesse tudo num resumo mal feito e mal simbolizado quando diz que tá tudo bem.
Ela não fala pra você, mas ela sente. E não sabe que tem culpa das coisas continuarem as mesmas justamente porque não diz e não diz porque tem medo de mudar demais as coisas. Paradoxo indesejado. Não foi o que pediu no menu de entrada. Dá o jeito e limpa o que quase escapa da boca dela com o guardanapo. Se entope de alguma bebida ou de alguma desculpa pra não deixar sair de novo. Você nem desconfia e talvez seja disso que ela esteja morrendo internamente: da sua falta de desconfiança dos sinais dela. Da falta de percepção milimétrica de quem confessa com as olheiras que tem chorado, de quem repuxa os lábios num sorriso mecânico como quem diz que é fachada, mas você não acha que é. Ela vai bem, obrigada, mas não vai coisíssima nenhuma. Ela fica e vai ficando chateada, magoada, doída por dentro, ainda que você a chame de doida pelos surtos neuróticos do nada – só é do nada pra você. Pra ela a coisa tem história, registro e motivos suficientes pra dar voz ao silêncio. Mas ela não fala.
Ela não grita e não olha mais nos seus olhos pra segurar o forte desejo de despejo esganiçado que arranha as cordas e arranha o peito e arranha esse amor bonito que vocês poderiam ter caso ela dissesse. Vive num futuro-mais-que-perfeito-que-nunca-vem sentindo a sua ausência prazerosamente presente que desdenha dela porque não sabe. Você não sabe e ela não diz. Não te conta das coisas que ela escreve sobre você num velho moleskine-diário-agenda-papel-de-pão onde faz de conta que as coisas acontecem e lá ela diz, te diz, me diz, grita e não se esganiça berrando que é tão evidente que nem precisaria rabiscar indiretas, desejar boa noite repetidas vezes a você sem letra ou melodia do Skank cantando em neon que a sorte te sorri e você não sorri de volta. Não te diz e eu aposto, aposto contigo hoje ou amanhã, aposto que um dia ela ainda decreta a própria alforria e põe a boca no trombone-alto-falante-teu-ouvido e cochicha baixinho todas as coisas que ela não diz e que você nunca quis ver.
Ou talvez ela se cale pra sempre e cultive o silêncio. Firme, forte e piedosamente bela num suplício sentimental que ecoa pelo restaurante, pelos jantares que tem com você, pelo mesmo pedido de sempre no cardápio em que nunca intervém na sua escolha. E convenha ao silêncio calmo e educadamente bonito como convém à etiqueta (motivada por tudo o que tinha a dizer e não lhe disse).

quarta-feira, 27 de março de 2013

Até que encontrei você.




Eu jurava que as coisas tremiam ou moviam-se depressa demais, só pra justificar cada topada, cada esbarrão acompanhado de um pedido de desculpas e cada cadarço desamarrado visto em queda livre contra o asfalto.  Justificava cada ato, cada passo, cada pato no parque que aparecia pra me pedir o amendoim que eu nunca gostei de dividir com ninguém. Justificava até as linhas do diário que era pra não conceder exceção à regra alguma, exceção de mim mesmo por aí. Senão eu transformava verso em prosa e deixava os parágrafos que eu rabisco no braço morrerem durante o banho. Mas você, você não veio justificada, em linha, acertada com os ponteiros do relógio da cozinha, nem com os meus ponteiros e mesmo assim tava ali inserida, ritmando as coisas todas do meu dia a dia.
Dá pra parar de me deixar vermelho com essas maneiras e gestos que me agradam, que me abraçam e que não me pedem justificativa? A gente esquece que gentileza é pior que blush. E que insegurança é o reverso da solidão de quem anda sem as mãos entrelaçadas nas tuas. Poço de secura pra quem ama de longe e ama dentro de uma redoma de vidro, protegido do frio e da chuva é a segurança. E um dia, num almoço ou na praia, eu te explico como são essas coisas todas que eu sinto e que misturam angústia, bobagens, a ponta do seu nariz gelado, o seu queixo meio quadrado e o desastre natural da minha falta de sorte. É tudo medo de perder as reclamações por conta do sono ou da falta de atenção e deixar a implicância diária de lado por algum motivo.
E você me deixa assim, com o riso escancarado, achando graça de tudo, até dessa gente toda que acha graça de tudo por aí. Eu já nem marco no calendário porque toda segunda e toda terça e todos eles têm um quê de ti. Um quê do perfume que eu gosto e do delivery de japonês. Um quê de desespero porque a  bateria do celular acabou. Um quê de meus amigos querem te conhecer, mas eu entendo a tua timidez. Tem também a falta das justificativas e eu já nem sinto mais falta dessas Hobbies todos que me atrasavam os ponteiros. Compensa o tempo – que é relativo e só existe pra me pesar as costas quando não tem massagem tua. Digo, ouço, rio e repito que com você cada abraço vem sob medida, como as minhas formas se adaptassem e os seus ossos usassem algum revestimento de veludo pra justificar a suavidade. Nem o nosso choque de atrito é ruim.
Daí eu divido o amendoim com você e com os patos do parque e paro de contar o tempo e largo o relógio de pulso em cima do criado-mudo e quem convive comigo já sabe do teu nome e do que você mudou na minha casa e de todos os quadros e dos filmes que a gente assistiu no fim de semana e bate aquele formigamento na pele que não dissolve e só aumenta.  Parece um chute nas bolas dado por uma criança enfurecida, sobe pelo estômago e ali fica, fica, incomoda, faz pesar o peito e o medo é bem assim mesmo, ainda mais aflito por pensar em perder você.
Eu jurava que as coisas tremiam ou moviam-se depressa demais, só pra justificar nada com nada. Até que encontrei você.